Tensão na Turquia

A feroz repressão com que no último sábado o governo do primeiro-ministro turco Recep Tayyp Erdogan reagiu a manifestações pacíficas e localizadas contra a destruição do parque da Praça Taksim - a principal de Istambul e uma de suas raras áreas verdes - desencadeou uma onda de protestos populares, não raro violentos, como de há muito não se via no país.

O Estado de S.Paulo

04 Junho 2013 | 02h08

Os distúrbios atingiram, entre outros centros, a capital, Ancara, e a cidade portuária de Esmirna, a terceira maior da Turquia. No domingo, foram registradas passeatas em 40 províncias, praticamente a metade do total. Segundo a Anistia Internacional, duas pessoas morreram em confrontos com os batalhões de choque da polícia, que recorreram fartamente a bombas de gás lacrimogêneo e canhões de água. Houve mais de mil feridos, apenas em Istambul, enquanto o número de presos superou 1.750 (a maioria já teria sido solta).

O que era, no início, uma iniciativa em defesa da integridade de um espaço público para impedir a construção, no local, de um shopping center, ao lado de uma mesquita e a réplica de um antigo quartel, transformou-se em um movimento contra o autoritarismo, a megalomania, as ambições políticas de Erdogan e, principalmente, a crescente islamização da República turca, onde o Estado se separou da Mesquita há 90 anos.

No seu terceiro mandato, a contar de 2003, Erdogan tem a seu crédito a vigorosa expansão da economia nacional e o destacado papel que o país passou a desempenhar no Oriente Médio. Embora a Turquia faça parte da Otan, a aliança militar ocidental, Erdogan não hesitou em se distanciar das posições norte-americanas em relação ao Irã e ao conflito israelense-palestino. Não obstante, alinhou-se com os EUA, a União Europeia, a Arábia Saudita e o Qatar contra a ditadura de Bashar Assad na Síria.

Líder do partido majoritário Justiça e Desenvolvimento (AKP), de linha religiosa, ainda assim Erdogan cuidou de se apresentar como promotor de uma Turquia democrática, aberta e tolerante, onde o convívio entre a fé e o secularismo seria um exemplo para o Islã. Nos últimos anos, porém, Erdogan deu de atacar a imprensa e perseguir jornalistas que o criticam. A intimidação explica por que as emissoras turcas de TV preferiram de início exibir programas de culinária, por exemplo, em vez das manifestações na Praça Taksim. Erdogan, aliás, tem horror às redes sociais - para ele, "a pior ameaça à sociedade". Decerto porque não consegue domá-las.

De outra parte, o autoproclamado democrata ignorou, quando não ridicularizou, a oposição de urbanistas e defensores do ambiente a seus opulentos projetos para Istambul, que incluem, além do megacentro de compras no pulmão da cidade, uma terceira e monumental ponte sobre o Bósforo, um novo aeroporto e uma mesquita das mil e uma noites - futuros símbolos da Turquia potência emergente.

Pior é o cerco islâmico aos laicos costumes sociais. O AKP de Erdogan quer banir o consumo de álcool em público e proibir o aborto. Nas ruas, sem ser reprimidos, militantes islâmicos atacam casais de namorados e ofendem mulheres desacompanhadas. Por último, mas de modo algum menos ominosos, há os planos políticos do primeiro-ministro.

Ele pretende mudar a Constituição para dar ao presidente da Turquia - cujas funções são em ampla medida protocolares, como nos sistemas parlamentaristas - novas e robustas atribuições. A partir do próximo ano, o presidente passaria a ser eleito diretamente, e não mais escolhido pelo Parlamento. E ele, Erdogan, almeja ser o primeiro chefe de Estado turco a chegar ao posto pelo voto popular, com mais poderes do que o chefe de governo.

A perspectiva assombra os setores liberais - e esse temor provavelmente ajudou a propagar os protestos contra Erdogan. A esta altura não está claro se serão duradouros e a que poderão levar. Talvez seja precipitado, de todo modo, falar em "primavera turca". A oposição, chefiada pelo Partido Republicano do Povo, é frágil e fragmentada, o governo tem o apoio da maioria da população e o país, afinal, ainda é uma democracia.

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