Tensões latentes

Está-se diante da mais séria crise entre o regime do presidente Vladimir Putin e o Ocidente

O Estado de S.Paulo

30 Março 2018 | 03h00

A escalada das tensões entre a Rússia e o Ocidente atingiu novo e preocupante patamar após Estados Unidos, Canadá, Austrália e outros 20 países aliados na Europa ordenarem a expulsão de 116 diplomatas russos, 60 deles baseados nos EUA, 12 dos quais em serviço na Organização das Nações Unidas (ONU), com sede em Nova York. Grande parte dos diplomatas expulsos atuava em missões de inteligência.

A ampla e coordenada ofensiva diplomática da chamada comunidade internacional é uma enfática vitória política da primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May. Há duas semanas, o governo britânico já havia ordenado a expulsão de 23 diplomatas russos em retaliação ao atentado com uso de Novichok – uma arma química que afeta o sistema nervoso central e pode levar à morte –, perpetrado no início do mês contra o ex-espião russo Sergei Skripal e sua filha, Yulia, em Salisbury, interior da Inglaterra. Ambos estão internados e correm risco de morte. Em resposta a Londres, o governo russo também ordenou a saída de 23 diplomatas britânicos em serviço na Rússia.

O governo do Reino Unido classificou como “altamente provável” a participação do governo russo no atentado. As tensões entre os dois países são latentes desde 2006, quando Alexander Litvinenko, um ex-agente da KGB, antiga agência de espionagem russa, foi envenenado em Londres com polônio, uma substância radioativa. De acordo com as autoridades britânicas, a morte de Litvinenko foi determinada pelo Kremlin.

Agora, está-se diante da mais séria crise entre o regime do presidente Vladimir Putin e o Ocidente desde a anexação da Crimeia pelo governo de Moscou, em março de 2014.

A expulsão dos diplomatas russos ordenada pelo presidente Donald Trump supera os 55 diplomatas que foram obrigados a deixar Washington em 1986, durante a guerra fria. Até agora, esta era considerada a mais ampla medida diplomática adotada pelos EUA contra a Rússia.

No âmbito doméstico, a expulsão dos diplomatas russos deverá fortalecer ainda mais o presidente Vladimir Putin. No dia 18 de março, ele foi reeleito com 76,7% dos votos, vitória recorde desde o fim da União Soviética, em 1991. Sua força perante o eleitorado reside na imagem que Putin transmite aos russos de ser um grande defensor de seu país contra as hostilidades do Ocidente. 

Para a esmagadora maioria dos russos, Vladimir Putin, ele mesmo um ex-agente da KGB, é o único líder patriota e forte o bastante para fazer da Rússia um país ao mesmo tempo temido e respeitado, não só pela comunidade internacional, mas também pelos seus. Para esta parcela do eleitorado, a eliminação de agentes duplos no exterior é vista como um recado para qualquer um que ousar trair a pátria.

O governo russo nega qualquer tipo de participação nos ataques a ex-espiões no exterior. Assim tem sido. “A Rússia sempre se esconde atrás da negação plausível, mas isso terá menos credibilidade agora”, disse William Pomeranz, especialista em Rússia do Wilson Center, em Washington. 

Dois dados importantes merecem consideração neste imbróglio diplomático. O primeiro é a solidariedade inequívoca dos EUA ao Reino Unido, mesmo diante da negativa oficial do governo russo quanto à suposta participação no atentado contra Sergei Skripal e sua filha. É notória a simpatia mútua entre Donald Trump e Vladimir Putin, e o atual movimento do presidente americano deixa margem para especulações quanto ao futuro das relações entre os dois países, já abaladas diante da suspeita da participação russa no resultado da última eleição presidencial nos EUA. “A expulsão dos diplomatas tornará mais difícil um encontro entre Trump e Putin”, completou Pomeranz.

Além disso, a crise com os russos vem no momento em que o Reino Unido e a União Europeia estão com relações abaladas por conta do Brexit. O respaldo europeu às ações de Theresa May mostra que o velho continente pode se unir quando ameaças externas sobrepujam divisões internas.

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