Terceira ou quarta guerra?

Seus gritos lembram o facínora de bigodinho que levou o mundo ao horror em 1939

Flávio Tavares, O Estado de S.Paulo

10 Agosto 2016 | 03h03

A violência habita o cotidiano com tanta naturalidade, como parte da vida, que já perdemos a noção das coisas simples ao redor. Quando fechamos o vidro do carro com medo de que nos assaltem (e matem) no semáforo, nem percebemos que o gesto mecânico nos torna prisioneiros de nós próprios. A rua deixou de ser espaço de convivência. Já não desfrutamos a cidade e seus habitantes nem a arquitetura, menos ainda as praças e os jardins.

A antiga civitas, surgida para o convívio e o diálogo, tornou-se hostil até pelo ruído e pela poluição. Hoje a rua é rápido estágio para sair da prisão doméstica (com grades e muro, código secreto na porta e guardas de segurança), passar à prisão ambulante e, finalmente, chegar ao trabalho.

Eis a versão brasileira daquilo que o papa Francisco chamou, agora, de “terceira guerra mundial”, em referência ao sacerdote de 85 anos degolado na França por um demente fanático do Islã. “Não se trata, porém, de guerra religiosa ou de conflito entre religiões, mas de uma guerra por interesses de poder e de dinheiro”, frisou, em nova crítica à cobiça fomentada pela sociedade de consumo.

Desde 2014 o papa chama as diferentes formas de violência, causadas pela ambição de poder, de terceira guerra mundial. “Todo o horror está contido ali, nessa ânsia de poder que destrói até a natureza e o meio ambiente, e dali se expande”, reiterou agora, na Polônia, na Jornada Mundial da Juventude.

A violência e as guerras têm a idade da História. Ou até da Pré-História, da qual não há documentos. Mas nenhum leão, mesmo faminto, devora outro leão. Nós, humanos e canibais, no entanto, enganamos e matamos os semelhantes para nos apoderarmos do que tenham ou do que venham a ter.

A era moderna dissimulou o canibalismo. O avanço científico-tecnológico facilitou a vida, a modernidade encurtou até a geografia e já não há distâncias. Xangai está tão próxima de São Paulo quanto Campinas, Tóquio, Belo Horizonte, Santos, Paris ou Ribeirão Preto. O mundo real se confunde com o virtual. Tudo está ao alcance da mão, basta um toque no computador ou no celular.

Também o terror da cobiça se espalhou e criou estímulos para um consumo desenfreado que aniquila o pensar e o transcendente. Cada vez mais, buscando ter mais e mais, nos empanturramos de quinquilharias. Ou perdemos o prumo e nos dobramos a ofertas difusas (ou fazemos com que se dobrem ao que oferecemos) para chegar ao poder e usufruí-lo, seja de que tipo for o poder. Ou para o que for.

Alguns estão nesse caminho honestamente, pelo trabalho empreendedor. Outros, pela rota tortuosa e fácil do engano e da mentira, irmãos gêmeos da preguiça e da ignorância, parentes da loucura. Nessa sofreguidão, os Eduardos Cunha e os políticos do PT, PMDB, PP e outros pês menores (que, em concubinato com grandes empresários, assaltaram a Petrobrás), ou os do PSDB (que armaram o mensalão mineiro e as tramoias no metrô paulistano) se misturam aos marginais que nos assaltam na esquina.

A não ser o horror do sangue derramado, em que os réus da Lava Jato, e similares, diferem (no arrogante desfrute do poder) dos delinquentes de armas na mão?

Uns roubam milhões de dólares do setor público e, temendo a prisão, delatam tudo (ou quase tudo) para ter uma tornozeleira como prêmio. Outros matam para roubar a bolsa, a carteira, o tênis “de marca” ou o novo totem do século 21: o telefone celular.

Tão perverso é o crime organizado nos altos escalões dos governos por figurões da política e do empresariado quanto o dos delinquentes visíveis que assaltam à saída das lojas da Rua José Paulino. Em ambos os casos há uma espécie de confisco natural, já parte do cotidiano e perante o qual nos dizemos impotentes. Já nem falo do narcotráfico e da perversão da droga, que se combate de forma tão inteligente que, a cada dia, mais se alastra e se aprofunda...

Aquele horror que explode mundo afora, e a TV nos mostra em imagens coloridas, nasce na loucura fanática do chamado Estado Islâmico e nele se simboliza. Mas está também aqui, ao alcance de nosso nariz, mesmo com outras raízes.

As consequências, porém, são idênticas. Ou até mais graves!

A destruição ambiental que a irresponsável mineração da Samarco provocou não se restringe a Minas Gerais nem é passageira ou sanável com obras futuras ou indenização em dinheiro. Compromete por séculos (ou eternamente) a bacia do Rio Doce, esteriliza áreas agrícolas, afeta a população.

O que são aquelas crateras de 100 ou 200 metros de profundidade e quilômetros de diâmetro das extrações a céu aberto, irreparáveis ao longo dos séculos, comparadas aos monumentos que os fanáticos do Taleban destroem? Crime maior é o de Minas – conta com nosso silêncio e, antes, contou com nossa omissão!

Tudo isso é a terceira guerra mundial. É guerra moderna, com várias frentes de combate e armas novas que atualizam velhas táticas e estratégias e nos fazem pensar, até, que vivemos em paz. Diante disso agimos como se a violência fosse tão incontrolável como a chuva nas enxurradas. A competição virou modo de vida, “subimos na vida” à custa dos demais, rejeitamos a solidariedade, a compreensão e o amor. Aplaudimos o grosseiro, do mau gosto do palavrão à música do “tum-tum-tum”, sem ritmo nem harmonia. Aceitamos a violência e pedimos (estupidamente) “construir mais presídios”, enquanto o narcotráfico reina e dá gargalhadas.

Ninguém pensa em educar e reconstruir as bases ético-morais de comportamento da sociedade inteira!

A violência ameaçadora, porém, está ao norte da América e nos ronda: o direitista Trump não é o inocente Pato Donald, ainda que tenha o mesmo nome. Seus gritos já nem são os da terceira, mas os da quarta guerra mundial, e, com o carrancudo silêncio de Putin, lembram o facínora de bigodinho que levou o mundo ao horror da 2.ª Guerra, em 1939.

*Jornalista e escritor, prêmio Jabuti de Literatura em 2000 e 2005

 

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