Terror em Oslo

Depois dos atentados de sexta-feira, já não se pode dizer que a Noruega é um país onde nunca acontece nada. Nem que o tédio é o resultado inevitável de uma vida de alto padrão que o Estado do bem-estar social proporciona a todos os noruegueses que têm, do berço ao túmulo, educação e serviços de saúde e assistência social gratuitos. Pois nesse país de população pequena e bastante homogênea, onde praticamente todos os vizinhos se conhecem, ocorreu um dos mais devastadores ataques terroristas, desde que a Al-Qaeda destruiu as torres gêmeas em Nova York.

, O Estado de S.Paulo

25 Julho 2011 | 00h00

Primeiro, foi a explosão de um carro-bomba no centro de Oslo, na rua onde está o escritório do primeiro-ministro Jens Stoltenberg. Depois, foi o ataque à reunião da juventude do Partido Trabalhista, na Ilha de Utoya. Atribuiu-se a ação ao temido grupo terrorista islâmico, que se especializou em fazer ataques coordenados a vários alvos - mesmo porque o grupo Ansar al-Jihad al-Alami, que alega ter vínculos com a Al-Qaeda, reivindicou a autoria dos atentados numa mensagem postada na internet. Horas depois, o autor da mensagem se retratou.

Sabia-se, já, que os atentados que deixaram, até agora, 94 mortos - os atentados da Al-Qaeda contra os transportes públicos de Londres mataram 37 pessoas - foram realizados por um único homem, o norueguês Anders Behring Breivik.

Entre 1999 e 2004, Breivik foi filiado ao direitista Partido do Progresso, que abandonou por considerar que a agremiação não se opunha com mais rigor à entrada de imigrantes na Noruega. O Partido do Progresso é o segundo maior bloco político do país. Defende uma política estrita de imigração, mas desaprova o uso de métodos violentos para desencorajar a entrada de estrangeiros e não aceita a filiação de extremistas. Sabe-se agora, pelos seus escritos na internet e por um documento de 1.500 páginas que a polícia encontrou em sua casa, que Anders Breivik, que se definia como um cristão conservador, achava que os políticos haviam traído a Noruega, permitindo que se fizesse no país uma experiência multiculturalista - e que alguém tinha de pôr um paradeiro nessa situação. Ninguém, durante todo esse tempo, percebeu nele a tendência homicida que se revelaria no final da semana passada.

Breivik se apresentava como caçador de marxistas e cruzado contra o Islã, o socialismo e a imprensa. Sua missão, escreveu, era salvar a Europa do multiculturalismo. Nos 80 dias que precederam o ataque de sexta-feira, ele descreveu meticulosamente, num diário, como explodiria o carro-bomba em Oslo e caçaria a tiros os jovens na Ilha de Utoya. Assinava-se "Cavaleiro Comandante Justiceiro dos Cavaleiros Templários".

Foi, enfim, um plantador de beterrabas norueguês, de extrema-direita, antimuçulmano e ultranacionalista, sem ligações com grupos terroristas, que matou 94 pessoas e se entregou calmamente à polícia. "Ele parecia impassível, bastante calmo, como se tivesse tido um dia normal", disse uma testemunha. E acrescentou: "Acho que uma porção de gente está aliviada porque isso foi feito por um cara maluco, e não por um grupo terrorista, a Al-Qaeda ou coisa parecida".

O primeiro-ministro Jens Stoltenberg felizmente teve uma reação mais realista, percebendo que o país não tem a temer apenas inimigos externos - os grupos terroristas islâmicos. "Nossa resposta (aos atentados)", disse ele, "é mais democracia, mais abertura, mais humanidade, mas sem ingenuidade."

Mais direta que o primeiro-ministro foi uma mulher que viu a destruição no centro de Oslo. "Se um islâmico faz algo errado, você pensa, "Ah, esses muçulmanos". Mas se um protestante branco faz algo errado, você pensa que ele é louco. Precisamos pensar seriamente sobre isso."

Um dos primeiros policiais a chegar à Ilha de Utoya, horrorizado com o que viu, disse que aquilo parecia a "obra de um louco". De fato, todo ato terrorista, toda carnificina de inocentes revela insanidade. Mas até na loucura há lógica e cabe aos noruegueses descobrir por que a sua sociedade - próspera e amante da paz como poucas no mundo - gerou o horror que experimentou na sexta-feira.

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