Terror no Chile

As informações sobre o atentado que deixou 14 feridos numa estação do metrô de Santiago ainda são desencontradas, e as autoridades chilenas dizem que não descartam nenhuma linha de investigação sobre a autoria do ataque.

O Estado de S.Paulo

11 Setembro 2014 | 02h05

Num país marcado pela polarização ideológica, o enfrentamento político não raro descamba para a violência nas ruas, e muitas vezes essa violência se traduz em bombas que explodem aqui e ali - somente neste ano foram quase 30. No entanto, todos esses atentados pareciam destinados apenas a assustar e a servir de advertência, causando somente danos materiais. O ataque em Santiago foi muito além - parece que o propósito dos terroristas era causar o maior número possível de vítimas -, e agora os chilenos se perguntam que fronteira foi atravessada na tarde de 8 de setembro.

O artefato explosivo consistia de um extintor de incêndio carregado com pólvora, ao qual estava acoplado um dispositivo alimentado por pilhas e ativado por um temporizador. A bomba foi colocada em uma lata de lixo do centro comercial localizado dentro da estação de metrô Escola Militar, que fica num movimentado bairro turístico de Santiago. A detonação se deu no momento em que havia grande fluxo de pessoas no local, por volta de 14 horas.

Entre os feridos há vários idosos. O governo confirmou que a mãe da presidente Michelle Bachelet, Ángela Jeria, havia deixado o local pouco antes da explosão. Naquele instante, todos faziam compras ou almoçavam. O objetivo dos terroristas, portanto, era intranquilizar os chilenos - e, de fato, o país está em choque.

Bachelet reagiu de forma imediata e dura. Convocou uma reunião de emergência para avaliar a segurança do país e anunciou que os responsáveis pelo atentado serão enquadrados na Lei Antiterrorismo.

Essa legislação foi criada em 1984, durante a ditadura do general Augusto Pinochet, razão pela qual sua aplicação é sempre cercada de controvérsias. Por ter sido, em sua origem, um instrumento de perseguição política, a Lei Antiterrorismo é logo interpretada como uma ferramenta a serviço do arbítrio, mesmo considerando-se que ela foi seguidas vezes reformada já em tempos democráticos - em 2003, 2005, 2010 e 2011.

Nem isso foi suficiente para que a esquerda chilena deixasse de considerá-la um produto da era Pinochet - a ponto de fazer com que a própria Bachelet, antes de assumir a presidência, prometesse limitar sua aplicação.

O Partido Comunista chileno, integrante da coalizão que sustenta a presidente, havia deixado claro que, para a agremiação, só há terrorismo quando a violência é cometida por agentes do Estado.

Com isso, o governo de centro-esquerda sinalizou uma perigosa leniência com aqueles que desafiam os pilares democráticos, entre os quais se encontra a manutenção da paz pública. Disso se alimentaram grupos radicais que se sentem à vontade para defender, por meio da violência, suas utopias revolucionárias - e cuja ação é justificada como se fosse um exercício de seu "direito à livre manifestação". As dezenas de bombas que explodiram no Chile nos últimos tempos resultam dessa falsa noção de democracia.

Todas as mais avançadas democracias do mundo dispõem de legislação específica para tipificar e punir o terrorismo. Para os movimentos de esquerda latino-americanos, notadamente os ditos "sociais", essa tipificação tem o único objetivo de "criminalizar" sua ação - no Brasil, polêmica semelhante emperra a adoção de uma legislação antiterrorismo, que se faz urgente diante da visibilidade mundial adquirida pelo País nos últimos tempos.

O atentado em Santiago, no entanto, subitamente tirou o termo "terrorismo" do inconsequente debate conceitual e lhe deu dolorosa materialidade. Todas as eventuais reservas que Bachelet pudesse ter em relação ao tema foram deixadas de lado, e ela adotou a firmeza e a determinação que esse dramático momento demanda.

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Editorial Estadão Chile

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