Tímidas metas para o clima

Depois de meses de suspense, a presidente Dilma anunciou em Nova York as metas brasileiras de redução nas emissões de gases com efeito estufa (CO2). Apresentado como um compromisso ambicioso, capaz de colocar o País na posição de um dos líderes do debate sobre as medidas internacionais para conter o aquecimento global, o plano do governo é, na verdade, tímido. Simplesmente mais do mesmo e, em alguns casos, menos do mesmo.

O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2015 | 03h00

Dilma prometeu reduzir as emissões de CO2 em 37% até 2025 e 43% até 2030, tendo como base o ano de 2005. Os números podem até impressionar, quando são comparados com as promessas de outros países. No acordo feito com a China no ano passado, os Estados Unidos prometeram diminuir em 28% suas emissões de CO2 até 2025.

Mas a audácia da meta brasileira tem mais de falácia do que de realidade. Há dez anos, data-base para o porcentual prometido das reduções, o Brasil havia emitido 2,043 bilhões de toneladas de CO2, de acordo com os cálculos oficiais. No entanto, segundo o próprio governo, as emissões de CO2 estavam em 2012 em 1,203 bilhão de toneladas, o que representa uma redução de 41,1% em relação a 2005. Dessa forma, os porcentuais de redução de 37% até 2025 e de 43% até 2030 são tímidos. Na prática, é uma permissão para aumentar as emissões até 2025 e diminuí-las um pouquinho até 2030. Onde está a audácia de quem quer ser um dos líderes nessa negociação?

As outras metas de Dilma seguem a mesma toada. Num primeiro relance, elas brilham, mas a comparação com a realidade atual deixa evidente que o compromisso anunciado pelo governo brasileiro é bem restrito. Prometeu-se, por exemplo, garantir 45% de fontes renováveis no total da matriz energética. Hoje, o porcentual já é de 42,5%.

Dilma afirmou que a meta de zerar o desmatamento ilegal será atingida até 2030. “Aceitar crimes ambientais por mais 10, 15 anos é embaraçoso”, afirmou Carlos Rittl, do Observatório do Clima.

Parece que o governo de Dilma Rousseff ainda não entendeu a importância e a urgência de conter o aquecimento global. Há tempos a ONU, por meio do seu Painel Intergovernamental de Mudança Climática (IPCC) - órgão científico que estuda as mudanças climáticas provocadas pela atividade humana e propõe opções para adaptação e mitigação dos efeitos -, vem alertando para o problema do aquecimento global. Em seu último relatório, afirmou que, sem uma redução drástica na emissão de CO2, é provável que a temperatura do planeta cresça somente neste século mais de 2°C. E é exatamente isso o que os países precisam fazer - cortar drasticamente suas emissões.

Segundo os cálculos do IPCC, para que haja 66% de chance de a temperatura não subir mais do que 2°C até 2100, as emissões de carbono precisam diminuir em 70% até 2050 e reduzir para um nível perto do zero até 2100. No cálculo, estima-se que o total das emissões de CO2 não pode ultrapassar a marca de 2,9 trilhões de toneladas de CO2, e até o ano passado já foi emitido 1,9 trilhão de toneladas.

Diante desse quadro, é vital chegar a um novo acordo climático na Conferência das Partes sobre Mudança Climática (COP-21) que substitua o Protocolo de Kioto, elaborado em 1997 durante a COP-3 e que se mostrou incapaz de frear as mudanças climáticas. Daí decorre a importância de cada governo apresentar uma proposta ambiciosa de redução das emissões de CO2.

Certamente, é razoável que os países em desenvolvimento tenham menores porcentuais de redução das emissões de CO2 que os desenvolvidos. Trata-se de uma questão de justiça fixar maiores taxas de redução para quem já poluiu mais e tem mais condições de investir em tecnologias mais limpas. No entanto, isso não justifica a posição brasileira de posar de audaz quando, na verdade, está sendo tímida. Além de constrangedor, é prejudicial ao meio ambiente.

Mais conteúdo sobre:
editorial

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.