Tocando o bumbo

Perdoem-me os leitores a insistência com que volto ao tema, objeto talvez de nove a cada dez artigos que escrevo para esta página, mas alguém tem de tocar o bumbo enquanto os fundamentalistas do mercado continuarem desmoralizando o ofício de publicar livros no Brasil. Meu mais recente ataque de indignação foi provocado por um episódio aparentemente banal, mas claramente revelador da degradação que contamina a gestão do negócio do livro, considerado como uma atividade empresarial diferenciada pela natureza do produto com que trabalha e da responsabilidade cultural, portanto, social, que isso implica.

A.P. Quartim de Moraes, O Estado de S.Paulo

16 Abril 2011 | 00h00

Procurou-me uma headhunter a serviço de uma casa publicadora importante, atrás da indicação de um profissional para substituir o diretor editorial, que, fiquei sabendo depois, estava de saída por ter atingido a idade-limite para trabalhar na corporação. Enviou-me por e-mail, cumprindo o que acredito que seja um procedimento rotineiro, um "perfil da vaga", com uma extensa discriminação das "atribuições do cargo". A primeira dessas atribuições, no topo da lista: "Direcionar a equipe na seleção de títulos com bom potencial de venda (o grifo é meu), que proporcionem prestígio à marca e que reforcem o catálogo". Quer dizer, essa editora só se interessa por livros que possam vir a vender bem e acredita que seja isso, a publicação de best-sellers, que dará "prestígio à marca". Pode haver confissão mais explícita de rendição à "razão de mercado" em detrimento da missão civilizadora do livro?

É claro que uma editora comercial - como o próprio nome está dizendo - é uma empresa, um negócio, que como tal precisa se tornar viável, dar lucro. E para isso precisa que seus produtos, os livros, vendam. Nada contra. Mas, para começar, as editoras de livros não são empresas como outras quaisquer, que podem alegar tranquilamente que responsabilidade social é assunto que não lhes diz respeito. As editoras têm, sim, a responsabilidade irrecusável de retribuir de alguma maneira à sociedade o subsídio que ela lhe concede na forma de renúncia fiscal. Livro, no Brasil, não paga imposto. Muitos editores jamais se deram ao trabalho de parar para pensar sobre as razões desse privilégio.

De qualquer modo, também por essa razão é condenável dar prioridade ao potencial de venda em prejuízo da qualidade de conteúdo. Esse procedimento é o resultado da associação de dois atributos incompatíveis com a responsabilidade social do editor: ganância e ignorância. O indispensável lucro deve ser o resultado de um trabalho muito mais difícil e desafiador do que o de farejar originais que se possam transformar em best-sellers. O que verdadeiramente dá prestígio à marca de uma casa publicadora é a competência para, primeiro, descobrir bons conteúdos; depois, transformá-los em livros que vendam bem.

Seguindo, porém, até com algum atraso, uma tendência que é universal, mas nem por isso auspiciosa, o segmento do mercado editorial brasileiro chamado de trade, aquele dedicado à produção de livros para venda no varejo, está hoje quase totalmente dominado pela obsessão do best-seller, que desconsidera a importância do conteúdo em benefício do desempenho de vendas.

Algumas maravilhosas exceções ainda podem ser encontradas, por conta do idealismo de um punhado de editores-amantes-de-livros, entre as publicadoras de médio e de pequeno portes. Entre as grandes, pouquíssimas são capazes ou estão dispostas a perseguir o equilíbrio entre conteúdo e potencial de vendas. O que lhes importa é exclusivamente a perspectiva de lucro, não para o conjunto do catálogo, mas para cada título individualmente considerado. E esse critério é demolidor, por exemplo, para as possibilidades de publicação de autores novos. Para o futuro da literatura brasileira.

A alarmante decadência dos conteúdos hoje disponíveis nas estantes das livrarias e a crescente escassez de títulos, ficcionais ou não, voltados para a realidade brasileira estão longe de ser levadas a sério pela maior parte dos profissionais envolvidos na produção de livros, pela mídia e até mesmo - especialmente lamentável - pelas entidades representativas do universo livreiro. Em contrapartida, muito se fala, ou melhor, se conjectura, sobre os efeitos da revolução digital na produção de livros, sobre quanto tempo o papel sobreviverá como suporte básico, sobre qual novo tablet vai fazer sucesso no próximo verão. Ou seja, tudo sobre as peripécias de quem está envolvido com a forma dos livros. Nada sobre o que num livro verdadeiramente importa: o conteúdo.

Não me refiro à cobertura midiática. O suplemento Sabático do Estado é um bom exemplo de como literatura e literatos podem e devem ser tratados. O que ninguém parece disposto a discutir é a questão do conteúdo do ponto de vista da política editorial que define os rumos de cada uma das casas publicadoras e do conjunto da indústria do livro no Brasil. Essa é uma discussão necessária, especialmente no momento em que o País avança pelo terceiro milênio com ambição de se tornar potência mundial. Os livros têm um papel a cumprir nisso.

Os empresários do setor editorial, é claro, têm todo o direito de continuar publicando exatamente o que acham que devem, apesar de se beneficiarem de uma isenção tributária concedida a partir do pressuposto de que um editor de livros não pensa só em ganhar dinheiro. Ah, sim! Existe o Instituto Pró-Livro, mantido por editoras com a missão de "contribuir para o desenvolvimento de ações voltadas a transformar o Brasil em um país leitor". Maravilhoso! É realmente importantíssimo estimular o surgimento de novos leitores. Mas não menos importante é pensar na qualidade dos conteúdos a serem oferecidos a eles. É disso que estamos falando.

JORNALISTA E EDITOR. E-MAIL: APQUARTIM@DUALTEC.COM.BR

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