Torcedores sofrem nas arenas

O conceito de arena, praça de esportes com equipamentos modernos e tecnologia de ponta para propiciar conforto e segurança para torcidas e jogadores de futebol, passou a ser utilizado para demarcar suas diferenças dos velhos estádios. No Brasil, contudo, até agora a experiência com o novo tipo de construção ainda não proporcionou nada que fosse capaz de facilitar a vida de quem atua ou, principalmente, de quem pagou ingressos mais caros para se livrar dos aborrecimentos e do desconforto nas edificações ditas modernas.

O Estado de S.Paulo

09 Fevereiro 2013 | 02h08

Construído há meio século pelo Estado de Minas para abrigar as torcidas fanáticas e adversárias inconciliáveis dos dois principais clubes de Belo Horizonte, o Cruzeiro e o Atlético Mineiro, o Mineirão foi posto abaixo para que sobre seus escombros se construísse a moderníssima Minas Arena. O antigo colosso para 100 mil torcedores dos últimos 50 anos recebeu nova cobertura, arquibancadas, vestiários, estacionamentos e esplanada e passou a receber a definição de multiuso, agora com 64.500 lugares. Em 21 de dezembro, tornou-se o segundo cenário pronto para a Copa, depois do Castelão, de Fortaleza, com a presidente Dilma Rousseff presente à festa.

A 144 dias do primeiro jogo da Copa das Confederações marcado para Belo Horizonte, lá foi disputado o clássico entre Cruzeiro e Atlético no domingo 3 de fevereiro. Para este foram vendidos 58.968 ingressos. As filas para comprá-los começaram a se formar na manhã de 29 de janeiro, dois dias antes da abertura das bilheterias. Foi então que o torcedor começou a viver o caos, inicialmente com o atraso de quase três horas para o início aprazado das vendas. Na internet, os sites sofreram uma pane e frustraram milhares de pessoas. O sistema demorou a ser normalizado. Posteriormente, houve problema na impressão dos bilhetes, feita no ato da compra. Ao fim do primeiro dia de comercialização, o presidente da Minas Arena, Ricardo Barra, já teve de pedir desculpas ao torcedor pelos transtornos operacionais. Na sexta-feira 2 de fevereiro, mais dor de cabeça: dessa vez na troca dos vouchers por ingressos, procedimento necessário para quem tinha comprado as entradas pela internet no dia anterior.

Nada disso, contudo, serviu de alerta para a empresa concessionária da administração do estádio, construído e reconstruído com dinheiro público: os meios de comunicação informaram sobre a notória falta de pessoal qualificado para atender à demanda do público ao local antes do jogo. A entrada foi tumultuada e praticamente paralisou o trânsito na capital mineira. No interior da arena multiuso os problemas se acumularam: faltaram água e alimentos nos bares, os sanitários não deram conta da demanda e o prazer do torcedor terminou se tornando tortura.

O secretário extraordinário para a Copa do Mundo em Belo Horizonte, Tiago Lacerda, considerou "normais" os problemas com estacionamento e de acesso, mas definiu como "graves" os ocorridos nos bares. O ministro do Esporte, Aldo Rebelo, constatou o óbvio: "É inadmissível que falhas de operação exponham o torcedor aos transtornos verificados". O governador tucano, Antonio Anastasia, anunciou uma fiscalização muito "firme e enfática", mas isso deveria ter sido feito antes, não depois.

O que ocorreu quatro dias antes na Arena Grêmio, clube que se orgulha de ter o mais moderno complexo esportivo de multiuso do País, no jogo com a LDU, do Equador, poderia ter chamado a atenção dos mineiros. Acostumada a descer correndo os degraus da arquibancada do Olímpico em "avalanche", parte dos 41.461 torcedores que foram ver o jogo se atirou sobre uma grade do estádio derrubando-a na comemoração de um gol. Muitos torcedores caíram no fosso que separa a torcida do gramado e oito ficaram levemente feridos. O acidente aconteceu quatro dias depois do incêndio da boate Kiss, em Santa Maria.

Como se viu nos casos dessas arenas multiuso prontas para a Copa, os torcedores pagaram com incômodos e ferimentos pela imperícia dos construtores e pela ineficácia das autoridades.

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