Torcer contra as projeções

Os brasileiros terão motivos para festejar se as previsões do mercado financeiro para 2017 estiverem fora do padrão habitual; por enquanto, as bolas de cristal do mercado indicam mais um ano muito ruim

O Estado de S. Paulo

04 Janeiro 2017 | 05h00

Os brasileiros terão dois excelentes motivos para festejar, dentro de alguns meses, se as previsões do mercado financeiro para 2017 estiverem fora do padrão habitual. Nesse caso, os fatos poderão confirmar os votos de feliz ano-novo – ou, pelo menos, o ano terá sido sensivelmente melhor que 2016. Por enquanto, as bolas de cristal do mercado indicam mais um ano muito ruim, com crescimento econômico de apenas 0,5% e inflação de 4,87%. Essa alta de preços será menor que a de 2016, mas ainda superior à meta de 4,5%, já muito alta pelos padrões internacionais. Mas há algo mais assustador que essas projeções, coletadas no dia 30 de dezembro pelo Banco Central (BC) e incluídas no último boletim Focus do ano passado. Se os erros forem parecidos com os observados em mais de uma década, os votos de feliz e próspero 2017 serão lembrados como se fossem pragas. Pelo menos a partir de 2006, a realidade econômica, na maior parte das vezes, foi pior do que indicaram as previsões iniciais, com inflação maior e atividade menor que as estimadas pouco antes ou logo depois do réveillon.

Toda semana começa, no Brasil, com a distribuição do boletim Focus, produzido pelo BC a partir de consultas a cerca de uma centena de instituições financeiras e grandes consultorias. O mais novo, com data de 30 de dezembro, foi distribuído nessa segunda-feira, primeiro dia útil do ano. Uma consulta a boletins distribuídos em cada começo de ano, a partir de 2006, confirmou mais uma vez: os economistas do mercado são mais otimistas no começo do que no fim de cada ano – ou, em algumas ocasiões, menos pessimistas.

Em seis dos dez anos entre 2006 e 2015 a variação do Produto Interno Bruto (PIB) foi pior que a indicada no primeiro boletim divulgado em janeiro. A diferença mais desastrosa ocorreu em 2015, quando o resultado final foi uma contração de 3,8%. A projeção inicial era de um crescimento de 0,5%, algo como um prolongamento da estagnação de 2014, fim do primeiro mandato da presidente Dilma Rousseff. O desempenho econômico foi pior que o previsto em 2009, 2011, 2012, 2013, 2014 e 2015. Também deve ter sido pior em 2016. O primeiro boletim distribuído no ano passado indicou uma contração de 2,99%. As últimas estimativas são de um resultado negativo de 3,5% ou algo muito parecido.

Os economistas consultados na pesquisa Focus têm sido otimistas até com mais frequência quando o assunto é inflação. Em oito das dez projeções iniciais, entre 2006 e 2015, a elevação do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi menor que a comprovada no fim do ano.

O erro mais notável ocorreu em 2015. A inflação teria ficado em 6,56%, se estivesse correta a previsão indicada no primeiro boletim distribuído no ano. Mas os preços ao consumidor subiram 10,67%, de acordo com o dado oficial produzido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O acumulado em 12 meses ainda ficaria acima de 10% em janeiro e em fevereiro de 2016. A partir daí cairia lentamente e chegaria a 6,99% em novembro. As últimas estimativas apontam um resultado próximo de 6,5%, limite de tolerância. Se isso ocorrer, o número efetivo terá sido pouco menor que o projetado inicialmente (6,87%). O dado oficial deve sair em poucos dias.

Diretores do BC prometem continuar trabalhando para levar a inflação à meta de 4,5% neste ano. Sua expectativa de sucesso é baseada, em boa parte, na perspectiva de um nível de atividade ainda baixo em 2017. Em dezembro, a equipe do BC reduziu de 1,3% para 0,8% o crescimento projetado para 2017. É pouco maior que a estimativa do mercado (0,5%), mas ainda muito limitado.

Expectativas muito ruins tendem a realimentar-se. O ano será sem dúvida penoso se os empresários ajustarem seus planos, como até agora, às projeções econômicas correntes. O governo precisa criar expectativas melhores, até para conseguir a arrecadação necessária a um ajuste eficiente e menos doloroso de suas contas. Terá de fazê-lo sem medidas populistas e de curto alcance. Muito mais importante que popularidade, nesta altura, é ter liderança e credibilidade.

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