Trabalhadores qualificados

Em pesquisa sobre a qualificação profissional dos estrangeiros autorizados a trabalhar no Brasil, na qual constatou que 90% deles possuem ensino médio completo ou ensino superior, o Ministério do Trabalho e Emprego adverte que "é imprescindível que a mão de obra nacional esteja preparada para competir com os estrangeiros por esses postos de trabalho". A advertência é pertinente, mas não deveria se limitar a esses casos, pois a escassez de profissionais qualificados se estende a outros segmentos do mercado de trabalho brasileiro.

, O Estado de S.Paulo

21 Julho 2010 | 00h00

O problema alcançou tal gravidade que especialistas apontam para o risco de haver um "apagão" de mão de obra no País. É inevitável, por isso, indagar o que o governo fez e está fazendo para enfrentar o problema. A resposta será desacorçoante: há programas oficiais de treinamento de mão de obra, mas alguns enfrentam o problema do corte de verbas e a maioria não parece ter sido planejada para atender às atividades que mais carecem de profissionais especializados.

Nos últimos anos, a entrada de trabalhadores estrangeiros no País se intensificou em razão da crise mundial e do desempenho satisfatório da economia brasileira. De cerca de 25 mil profissionais estrangeiros autorizados pelo governo a trabalhar no País em 2005 e 2006, passou-se a cerca de 43 mil por ano nos dois últimos anos, de acordo com o estudo Trabalhadores estrangeiros e qualificação profissional divulgado pelo Ministério do Trabalho. Nos três primeiros meses de 2010, entraram regularmente no País 11.530 trabalhadores. Se a tendência se mantiver, neste ano serão admitidos mais de 46 mil trabalhadores estrangeiros.

Além do alto grau de escolaridade desses trabalhadores, duas outras características são notáveis nos dados do governo. Há uma forte concentração regional de estrangeiros. De 2005 até agora, os Estados do Rio de Janeiro e de São Paulo foram os que mais absorveram profissionais estrangeiros, cerca de 70 mil em cada um deles, um número muito maior do que o registrado no Estado que vem em terceiro lugar, Minas Gerais, que recebeu 5,2 mil estrangeiros no período.

É forte também a concentração de estrangeiros no setor de energia. Dos profissionais absorvidos pelo Rio entre 2005 e 2009, 62% trabalham em embarcações ou plataformas de exploração de petróleo e gás.

O crescimento do número de trabalhadores estrangeiros no Brasil se deve à necessidade de um tipo específico de profissional, capaz de operar equipamentos importados e mais modernos, segundo o Ministério do Trabalho. "Isso demanda a vinda de profissionais especializados para a supervisão da transferência de tecnologia e montagem e execução das etapas mais sensíveis da implantação desses equipamentos", disse ao jornal Valor o coordenador geral de imigração do Ministério, Paulo Sérgio de Almeida.

A explicação vale para os casos citados, de trabalhadores da área de petróleo e gás. Mas faltam profissionais qualificados também em setores que empregam grande quantidade de trabalhadores, como o comércio, construção civil, hotelaria e serviços de reparações. Como o País não preparou adequadamente a mão de obra ? e, a treinar mão de obra, o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) tem preferido apoiar os programas do BNDES ?, enfrenta a escassez de trabalhadores num momento em que registra cerca de 5 milhões de desempregados, que, por não terem nenhuma qualificação, terão enormes dificuldades para ingressar no mercado de trabalho regular.

"O governo brasileiro tem estado atento para que a mão de obra nacional seja sempre prioritária e que acompanhe, por meio da qualificação profissional, todas as inovações tecnológicas que caracterizam o trabalho contemporâneo", diz o Ministério do Trabalho em sua pesquisa.

Mas a escassez cada vez maior de profissionais treinados para diferentes funções ? problema que as empresas privadas tentam resolver com cursos específicos ? mostra que, se o governo faz alguma coisa, é insuficiente para suprir a demanda do País.

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