Transição na China

O Partido Comunista Chinês (PCC) decidiu expulsar e julgar Bo Xilai, o pivô de um dos maiores escândalos da história do partido, e, ao mesmo tempo, anunciou para 8 de novembro a realização do congresso que vai selar a transição de poder no país. Os dois episódios, que estão ligados, demonstram o esforço da cúpula comunista chinesa de superar as divergências internas para a planejada renovação do corpo dirigente e podem apontar o caminho do país no futuro próximo, quando o modelo econômico também deve passar por revisão.

O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2012 | 03h09

Bo Xilai não é um personagem qualquer, e sua desgraça diz muito sobre os atuais dilemas políticos chineses. Filho de Bo Yibo, herói da Revolução Comunista (1949) e um dos líderes da velha guarda do PCC, Bo governava a populosa megalópole de Chongqing, uma das quatro cidades com status de província na China, e nesse trabalho se notabilizou por seu grande carisma, pelo duro combate às máfias locais e pela defesa de políticas populistas, de inspiração maoista, que lhe valeram muitos seguidores e grande poder - cujo exercício muitas vezes dispensava a intermediação do partido.

Com esse capital político e uma imensa ambição, que incluiu a destruição cruel de adversários em uma escala incomum mesmo para os padrões do PCC, Bo teve ascensão fulminante, que lhe valeu chance real de obter uma das sete cadeiras do Comitê Permanente do Politburo, a mais alta instância decisória do PCC. Valeu-lhe, também, uma coleção de inimigos em todos os escalões do partido, e seus excessos o fizeram ser visto com desconfiança crescente na cúpula comunista, interessada, como sempre, em demonstrar unidade e harmonia em seus momentos de transição.

A trajetória de Bo foi subitamente interrompida em fevereiro deste ano, quando sua mulher, Gu Kailai, foi acusada de ter assassinado o empresário britânico Neil Heywood, cujas relações com a família Bo lhe haviam rendido bons negócios em Chongqing e em outros lugares da China. O denunciante, um ex-chefe de polícia que trabalhou para Bo, revelou a diplomatas ocidentais a extensão da disputa interna de poder no PCC. Segundo a versão oficial, Heywood teria sido morto por causa de "divergências econômicas" com Bo, sugerindo uma relação corrupta. Gu foi condenada num julgamento-espetáculo, concebido para desviar a atenção do escândalo político.

Agora, o PCC acusa Bo de abuso de poder no caso de Heywood, de ter recebido grande quantidade de propinas e de ter mantido relações sexuais "inapropriadas" com várias mulheres. No conjunto, tudo isso visa a provar que Bo violou a disciplina partidária e será duramente punido, no que promete ser o maior julgamento político na China desde o caso da "Gangue dos Quatro", em 1980. Será uma forma de destruir a biografia de Bo e de desestimular seus simpatizantes a reagir, de modo a garantir a imagem de serenidade que a nomenklatura chinesa tanto persegue. O maior crime de Bo não foi a suposta cumplicidade num assassinato nem a evidência de que aceitou suborno - crime pelo qual muitos no PCC teriam igualmente de responder. O grande problema foi ter acreditado que era possível atropelar a hierarquia do partido e sair vivo.

A negociação entre as alas do PCC para chegar a um consenso sobre o que fazer com Bo atrasou a definição da data do 18.º Congresso Nacional do partido, que normalmente acontece em meados de outubro. Ademais, e não menos importante, a disputa pelo poder ocorre num momento especialmente crítico, porque a economia chinesa experimenta acentuada desaceleração, indicando talvez a necessidade de um modelo de crescimento menos dependente dos investimentos do governo. E esse processo deverá ser conduzido por Xi Jinping, o provável sucessor do presidente Hu Jintao. Xi teve uma trajetória semelhante à de Bo Xilai - é filho de um ex-companheiro de armas de Mao e construiu sua carreira estabelecendo um elo com os ideais revolucionários, e não com a tecnocracia atual. A diferença é que ele é muito mais discreto.

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