Trânsito pior do que parece

Em um ano, o trânsito na cidade de São Paulo piorou 26% no horário de pico da tarde e 68% aos sábados, entre 12 e 14 horas. Conforme dados da CET, os congestionamentos, que no ano passado atingiam a média de 63 quilômetros, entre 17 e 20 horas, chegam hoje a 80 quilômetros. A situação é semelhante à de dois anos atrás, quando o governo do Estado resolveu investir R$ 2 bilhões na construção de 46 quilômetros de novas pistas na Marginal do Tietê, além de intervenções em cinco pontes. Durou pouco o alívio trazido por essas obras e por medidas como a restrição à circulação de caminhões no centro expandido. É claro que sem isso a situação estaria muito pior, principalmente levando-se em conta que entram em circulação na cidade mais de 500 carros por dia.

O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2012 | 03h08

Para os paulistanos que passam horas trafegando a baixa velocidade, num interminável acelera-e-freia, a situação do trânsito parece ainda mais grave do que afirma a CET. E sua impressão está próxima da verdade. A CET tem sido duramente criticada por especialistas em mobilidade urbana por causa da gritante diferença entre os seus números e os registrados por empresas privadas. Além de monitorar apenas 5,4% das vias da cidade - as 868 ruas e avenidas - seus métodos são arcaicos. A maior parte de seus dados é colhida por agentes postados no alto de prédios, com binóculos, para observar o movimento nas ruas e avenidas que ela considera os "principais corredores da cidade", no centro expandido.

Assim, ficam de fora ruas estreitas nas quais foi autorizada a construção de novos empreendimentos, grandes polos geradores de tráfego, sem um estudo criterioso de seu impacto no trânsito local. As redondezas do Shopping Morumbi, onde muitas torres estão sendo construídas, são um exemplo disso. As ruas acanhadas não suportam trânsito intenso. Depois de receber um grande número de empresas, tanto de manhã como de tarde elas passaram a ser invadidas por comboios de ônibus fretados, que não respeitam as regras de circulação e trancam as vias, com reflexos negativos em todos os corredores da região.

Às 19 horas de 1.º de junho, São Paulo sofreu com 295 quilômetros de lentidão, conforme os dados da CET. No mesmo dia, segundo a Maplink, empresa privada especializada no levantamento de dados de trânsito, os congestionamentos chegaram a 507 quilômetros. A diferença se explica porque o Maplink trabalha com informações do sistema GPS de carros que são rastreados por satélite, o que permite verificar a situação em todos os bairros. Os dados são atualizados a cada 15 minutos. Conforme a empresa, o trânsito difícil faz o paulistano sofrer até nas noites de sábado, quando a lentidão é maior do que nas segundas, terças e quartas-feiras.

Em tempo de Google Maps, redes sociais e uma infinidade de sites especializados em informações sobre as condições do trânsito, a CET tem de evoluir. Seus métodos são os mesmos de 30 anos atrás e ela só considera o centro expandido. Não tem mais sentido ela verificar o que se passa apenas nas vias tidas antes como as mais importantes, porque hoje quase todas as outras estão também nessa condição. Os congestionamentos se espalharam por toda a cidade. A coleta e a análise, devidamente atualizadas, dos dados de trânsito poderiam ajudar, e muito, o planejamento das operações da CET, e também a melhorar o desempenho, tanto dos equipamentos de controle como dos semáforos e do próprio policiamento.

É preciso considerar ainda a segurança. Motoristas presos em congestionamentos, principalmente nas Marginais, além de tempo, com frequência perdem também dinheiro e celulares em assaltos realizados por bandidos que se aproveitam dessa situação. Sem ter para onde fugir, esses motoristas se tornam alvos fáceis.

A longo prazo, como é sabido, só grandes investimentos em transporte coletivo, principalmente na ampliação da rede ainda acanhada do metrô, resolverão o problema do caótico trânsito da capital. Mas, a curto prazo, as novas tecnologias podem dar importante contribuição para melhorá-lo.

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