Trapalhadas de um relator

Quando se pensava que a péssima impressão causada pelo desempenho da CPI de Carlinhos Cachoeira desde sua instalação havia chegado ao ápice com o relatório lido na semana passada, seu autor, Odair Cunha (PT-SP), deu novo vexame ao recuar de decisões que havia tomado antes.

O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2012 | 23h54

O relatório original provocou repulsa, entre outros motivos, por sugerir ao Conselho Nacional do Ministério Público que investigue o procurador-geral da República, Roberto Gurgel, e propor o indiciamento de cinco jornalistas, entre os quais um dos editores-chefes da revista Veja, Policarpo Júnior, por formação de quadrilha. Em ambos os casos os motivos alegados pelo deputado são, se não torpes, no mínimo injustificáveis. Gurgel foi acusado de não ter agido corretamente ao não dar o aval da Procuradoria à continuação das investigações da Polícia Federal na Operação Vegas, que incriminava o senador oposicionista Demóstenes Torres por manter relações escusas com o bicheiro. Depois, outra operação, a Monte Carlo, levaria à cassação do parlamentar por seus pares.

Policarpo foi acusado de ter extrapolado o "limite de relação entre fonte e jornalista" porque manteve contatos telefônicos com o contraventor e não denunciou a existência da quadrilha. Nas 349 páginas dedicadas às relações da imprensa com Cachoeira, mais de 80 delas tratando do jornalista da Veja, o relator omitiu declarações dos policiais encarregados das investigações, segundo os quais ele cumpriu sua tarefa de ofício de obter informações.

O documento final da CPI comprovou as suspeitas de que a esta teria sido convocada, de fato, somente para atender a um capricho do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que nunca perdoou o governador de Goiás, Marconi Perillo (PSDB), por ter declarado que o avisou pessoalmente da existência do esquema de compra de votos de apoio de bancadas de pequenos partidos para o governo - o mensalão. A presidente Dilma Rousseff nunca teve muito entusiasmo por seu funcionamento por causa das relações nada ortodoxas entre a construtora Delta, de Fernando Cavendish, e um dos mais poderosos membros da base aliada, o governador do Rio, Sérgio Cabral (PMDB), seu amigo do peito. E também com burocratas da cúpula do governo federal. E a débil oposição nunca teve forças para se opor à vontade de Lula.

Enquanto a CPI nada de novo trazia a lume, o senador Demóstenes Torres foi desmascarado, execrado publicamente, perdeu seu mandato e agora pode até vir a ser impedido de desempenhar suas funções de promotor por causa da revelação de sua face velada de despachante de luxo do acusado de quadrilheiro.

O relatório da CPI preparou o enterro político do desafeto de Lula e do Partido dos Trabalhadores (PT), o governador goiano, acusado de seis crimes. O único petista acusado foi o prefeito de Palmas (TO), Raul Filho. Outro personagem das maracutaias denunciadas, o governador do Distrito Federal, Agnello Queiroz (PT), recebeu indulgência prévia do correligionário.

O problema deste primeiro relatório de Odair Cunha é que ele é tão explícito que terminou por expor, além dos eventuais podres dos adversários, as explícitas intenções de vingança dos dirigentes petistas não apenas contra Perillo, mas também contra o procurador-geral Gurgel e o jornalista Policarpo. O primeiro, nomeado por Lula e mantido por Dilma, virou desafeto do grupo no Poder Executivo federal por ter produzido um libelo acusatório inquestionável sobre os delitos cometidos pelos réus do mensalão, especialmente os petistas de escol José Dirceu e José Genoino. O segundo, por fazer parte da equipe de um veículo de informação que tem denunciado implacavelmente episódios de corrupção explícita da cúpula petista no poder. Cachoeira passou a ser apenas um pretexto.

Flagrado pela exibição de seus maus propósitos, o relator tenta fugir do opróbrio recuando das absurdas acusações iniciais. E mostra pusilanimidade, seja ao executar trabalho sujo, usando função pública como instrumento de vingança pessoal, seja ao tentar agora lavar as mãos.

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