Tratar com bandidos

Não foi certamente intenção de Michel Temer referir-se a membros de sua equipe – e nem seria justo sugerir que cometeu um ato falho –, mas a espécie de desabafo a que o presidente interino se entregou na terça-feira ao rebater críticas a sua gestão com o argumento, entre outros, de que tem experiência no trato com “bandidos” pode ser interpretada como uma boa notícia. Considerando que o rigor moral não é característica que sobressaia no perfil de muitos dos integrantes do primeiro escalão do governo provisório, a fala de Michel Temer deixou claro que ele está atento a essa constrangedora realidade e, sempre que entender necessário, reagirá com rapidez e firmeza, como o fez ao exonerar Romero Jucá do cargo de ministro do Planejamento.

O Estado de S. Paulo

26 Maio 2016 | 03h00

Antes de serem tomadas como um libelo contra as escolhas de Temer, as restrições do ponto de vista ético que não apenas nós fazemos a parte do primeiro escalão do atual governo devem ser compreendidas como decorrência da ampla e secular contaminação do sistema político-partidário pelo nefasto patrimonialismo, expressão que define, em sentido lato, a prática da apropriação privada da coisa pública.

De fato, a repulsiva naturalidade com que políticos e gestores públicos se permitem, em benefício próprio e de seus grupos e partidos, meter a mão no que não lhes pertence é uma herança colonial, mas aprimorada e elevada à condição de método político pelo lulopetismo que também devastou a economia brasileira com seu populismo irresponsável. Essa flagrante evidência, explicitada no fato de estar hoje na cadeia um amplo e seleto grupo de ex-dirigentes do PT, explica o fato de, agora na oposição sem tréguas ao governo provisório, os petistas acusarem Michel Temer e seus apoiadores de tudo, principalmente de serem golpistas, mas sempre evitando cuidadosamente referências à corrupção. É a tal história da corda em casa de enforcado.

A corrupção no trato da coisa pública infelizmente faz parte da realidade brasileira – e nisso o Brasil não está sozinho. Mas a Operação Lava Jato está aí a demonstrar que as nossas instituições democráticas são suficientemente fortes para identificar os corruptos e entregá-los à Justiça, onde quer que despontem no aparelho estatal.

É também muito bom saber que o presidente interino está disposto a colocar a serviço do País sua experiência no trato com bandidos, adquirida em duas passagens pela Secretaria da Segurança Pública de São Paulo.

No momento, não é só a corrupção que pode comprometer gravemente a eficiência do governo. As maiores ameaças aos esforços de reconstrução nacional são de natureza genuína ou oportunisticamente ideológica que surgem a partir do anúncio das primeiras medidas de saneamento da economia. Os protagonistas da ruína e do saque da economia nacional tentam agora convencer os brasileiros de que estarão sendo vítimas de retrocessos nas conquistas sociais e do avanço das elites sobre os direitos dos trabalhadores.

O PT, é claro, tentará permanecer à frente dessa linha de ataque, com o apoio das organizações sindicais e sociais que controla e dos pequenos partidos de esquerda que o apoiam. E o fogo será concentrado – aliás, já começou – nas indispensáveis medidas de austeridade que implicam cortes de despesa em todas as áreas do governo, inclusive na Saúde e na Educação.

O populismo esquerdista do PT tenta incutir na cabeça das pessoas a ideia de que o governo tudo pode, basta querer. Sem vontade política, de fato, nada acontece. Mas a vontade, sem os recursos indispensáveis, é inerte. E foi nessa condição que os estroinas do lulopetismo deixaram o País. O déficit do orçamento deste ano é estimado em astronômicos R$ 170,5 bilhões. Não há dinheiro, o Brasil está quebrado. Obra do PT. Alegar agora que o governo interino conspira contra os mais pobres é falta de escrúpulos, desfaçatez, pura bandidagem. É bom saber, então, que o País tem na chefia do Executivo alguém com experiência em tratar com bandidos.

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