Trump e o fiasco do G-20

Por oposição do secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, foi omitido o compromisso de 'resistir a todas as formas de protecionismo'

O Estado de S.Paulo

21 Março 2017 | 03h00

O nacional-populismo do presidente Donald Trump foi vitorioso na reunião ministerial do Grupo dos 20 (G-20), formado pelas 19 maiores economias avançadas e emergentes e pela União Europeia. Dois temas fundamentais para a cooperação internacional foram abandonados no comunicado final do encontro encerrado no sábado em Baden-Baden, na Alemanha. Por oposição do secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, foi omitido o compromisso de “resistir a todas as formas de protecionismo” – palavras usadas em 2016. Esse compromisso, frequente nos encontros ministeriais ou de cúpula, nem sempre foi cumprido integralmente por todos os membros do grupo. Mas nunca se deixou de cultuar, formalmente, as normas internacionais do livre-comércio. Não se mencionou, também, a disposição de financiar medidas contra a mudança climática. O representante da Arábia Saudita juntou-se ao norte-americano para impedir qualquer referência a esse tipo de política. A promessa de financiar ações de preservação ambiental, com base no acordo de Paris de 2015, apareceu em documento emitido na reunião no ano passado.

A redação dos comunicados depende de unanimidade. Qualquer governo pode evitar a inclusão de um comentário ou de uma tese, mesmo contra a opinião da maioria. Isso nem sempre é feito e com frequência os negociadores encontram fórmulas para acomodar os pontos de vista. O esforço, desta vez, foi inútil, porque a política prometida pelo presidente Donald Trump inclui, como pontos essenciais, o protecionismo, o abandono de compromissos internacionais e a rejeição de acordos de preservação ambiental. Foi uma surpresa a manutenção, no documento final do encontro, da referência às ações de regulação do sistema financeiro.

Embora as promessas nem sempre sejam cumpridas de forma rigorosa, há muito mais que retórica nas discussões e nos compromissos assumidos em conjunto pelos membros do G-20. O protecionismo nunca foi eliminado e até aumentou, em alguns países, na pior fase da crise global. Mas o apoio às normas internacionais de comércio nunca foi renegado. Apesar dos defeitos, o sistema de regras proporciona uma base para o intercâmbio internacional. Além disso, todos os participantes do sistema podem recorrer aos mecanismos de arbitragem e de composição de interesses. É fácil entender por que o presidente da China, Xi Jinping, apresentou em Davos, em janeiro, na semana de posse do novo presidente americano, uma eloquente defesa da globalização e do livre-comércio.

Anfitrião do encontro, o ministro das Finanças da Alemanha, Wolfgang Schäuble, tentou atenuar a sensação de fracasso. Todos eram indiscutivelmente contrários ao protecionismo, disse ele. Não é claro, no entanto, o significado de protecionismo para cada participante do encontro, acrescentou o ministro. “Não foi o melhor de nossos encontros, mas evitamos um retrocesso”, comentou o comissário para assuntos econômicos da União Europeia, Pierre Moscovici. “Mas espero que em Hamburgo (no próximo encontro) a redação seja diferente. Precisamos disso. É a razão de ser do G-20”, completou.

Esta última frase mostra o tamanho do desafio. O G-20 foi criado como organismo ministerial. No fim de 2008, quando a crise assolava o mundo, o presidente George W. Bush propôs uma reunião de cúpula do grupo para discutir ações conjuntas. A iniciativa deu resultado. Passada a pior fase, as discussões do G-20 se tornaram menos eficazes, mas as conferências nunca deixaram de ter importância para discussões de interesse geral, para o balanço de políticas e para a reafirmação dos valores mais importantes da ordem global.

A política de Trump rompe esse padrão, depreciando as normas internacionais e os acordos. Ao mesmo tempo, valoriza as ações unilaterais e a disputa exclusivamente baseada nos interesses nacionais, tais como definidos em cada momento. É, enfim, a política da truculência. Mais que um fiasco, o resultado da reunião de Baden-Baden é um desastre muito inquietante.

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