Trump, nu e cru

Os extremistas se consideram livres para externar seu pensamento deletério, e o presidente americano não parece disposto a fazer força para desmotivá-los

O Estado de S.Paulo

17 Agosto 2017 | 03h00

Os fanáticos de extrema direita que chocaram o mundo com uma manifestação abertamente racista e antissemita em Charlottesville, na Virgínia, no fim de semana, não viram necessidade de cobrir o rosto, como faziam os membros da Ku Klux Klan, a organização racista americana. E o motivo disso é simples: eles acreditam que um dos seus está hoje na presidência dos Estados Unidos, com a cara à mostra, dizendo as mesmas coisas que eles dizem, mudando apenas uma palavra ou outra em razão de conveniências políticas.

Afinal, o presidente Donald Trump não apenas foi incapaz de condenar, com a necessária contundência, aquele ato hediondo, como revelou certo apreço pelos extremistas, o que indica que ele começa a deixar de lado as tais conveniências políticas que até agora o fizeram refrear a língua no limite do discurso de ódio que tão bem caracteriza seus eleitores mais radicais.

A experiência histórica indica que líderes como Trump chegam ao poder com o objetivo explícito de destruir a política tradicional, aquela que pressupõe a convivência com os adversários ideológicos, e não sua aniquilação. Trump, assim como fizeram os líderes dos regimes de vocação totalitária do século passado, age como se pretendesse eliminar toda forma de intermediação institucional com seus eleitores, criando neles um sentido de pertencimento a uma comunidade nacional exclusiva – nela, não cabem os inimigos, isto é, todos aqueles que não cumprem os requisitos raciais, religiosos e nacionais para serem os “verdadeiros” americanos.

Quando Trump condena “ambos os lados” de um conflito em que um desses lados é formado por grupos supremacistas brancos e neonazistas armados, e o outro lado estava lá apenas para denunciar esse evidente atentado contra os valores mais caros dos EUA, está claro que está comprometido com os extremistas – e, para defendê-los, apelou para a mais rasteira equivalência moral, ao dizer que “há gente muito boa dos dois lados”. Ficou difícil encontrar quem poderia ser qualificado como “gente boa” entre os 700 manifestantes que gritavam palavras de ordem contra judeus, imigrantes e negros, portando tochas para intimidar os inimigos e inebriar os simpatizantes, como faziam os paramilitares nazistas na Alemanha dos anos 30.

Trump chegou à presidência dos Estados Unidos com uma campanha que seduziu os americanos que se consideravam negligenciados pelos poderosos clãs políticos de Washington. Era o outsider capaz de denunciar os imigrantes como “estupradores” e “traficantes”, capaz de questionar os efeitos da globalização e denunciar o predomínio dos predadores de Wall Street, capaz de dar voz à classe média branca que perdeu poder aquisitivo e se julgava injustiçada em relação a negros e latinos.

Os eleitores de Trump que desfilaram seu ódio em Charlottesville foram encorajados por essa plataforma, tomada por eles ao pé da letra. Não há razão para acreditar que será um incidente isolado. Infelizmente, outros virão, porque, desde a eleição de Trump, os extremistas se consideram livres para externar seu pensamento deletério, e o presidente americano não parece disposto a fazer força para desmotivá-los. A imensa reação negativa no país ao comportamento de Trump, inclusive entre aqueles que costumeiramente o defendem na imprensa e no Partido Republicano, pode acabar servindo para que ele e seus eleitores fanáticos se unam ainda mais, tornando mais errática a sua já imprevisível e caótica administração.

Não causa espanto, apenas desgosto, que ainda existam nos Estados Unidos, de forma organizada, grupos que defendem o nazismo, ideologia genocida que o país combateu com vigor nas trincheiras da Europa na 2.ª Guerra e que violenta de maneira cabal o próprio espírito americano. O que provoca especial dissabor, para os amantes do mundo livre, é que o presidente dos Estados Unidos, de quem se espera sempre a defesa intransigente dos valores democráticos, se permita vincular-se a esses notórios liberticidas.

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