Um alívio enganador

É apenas aparente o alívio que a inflação deu em agosto. Embora o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) calculado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) tenha variado 0,22% no mês passado, bem menos que a alta de julho (0,62%) e a menor variação para o mês desde 2010, a inflação acumulada de janeiro a agosto já alcança 7,06% e em 12 meses, 9,53%. São números bem acima da meta de 4,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional para este ano e que superam até o complacente limite de tolerância de 6,5%.

O Estado de S. Paulo

12 Setembro 2015 | 02h00

Não há o que comemorar. Apesar da queda da inflação em agosto, “o nível dos preços continua elevado” e, pior, “os preços continuam aumentando”, observou a coordenadora de índices de preços do IBGE, Eulina Nunes dos Santos. É um bom resumo da situação.

A inflação alta é um dos componentes da crise em que o País mergulhou como consequência da desastrosa administração petista, cujos métodos e práticas estão sendo desvendados pela Operação Lava Jato. Dos 12 anos e meio do PT no poder surgiram os rombos nas finanças públicas cujas dimensões só agora o governo começa a admitir, mas que os analistas privados e as agências de avaliação de risco econômica já vinham observando há tempos. A incompetência do governo gera mais insegurança nos agentes econômicos, o que resulta em redução mais acentuada do ritmo de atividade da economia.

Tem-se hoje uma combinação de recessão com preços em alta contínua. Se há alguma consequência positiva dessa combinação perniciosa para as empresas e para os consumidores é o fato de a queda da atividade econômica reduzir a velocidade da alta dos preços.

Mesmo assim, a inflação persiste e sua desaceleração em agosto se deveu a fatores específicos, de efeitos limitados no tempo. Alguns alívios mais notáveis sobre a inflação no mês passado foram pontuais, como observou a coordenadora de índices de preços do IBGE, que citou o caso do preço das passagens aéreas, cuja queda de 24,9% foi responsável por cortar 0,11 ponto porcentual do IPCA de agosto. Mas é um componente do índice de preços que oscila em função do calendário.

Também os alimentos contribuíram para reduzir a inflação no mês passado, pois parte significativa dos produtos que compõem esse grupo ficou mais barata. Na média, os preços de alimentos e bebidas ficaram 0,01% menores do que no mês anterior. Mas, em julho, esse mesmo grupo de produtos tinha ficado 0,65% mais caro, uma variação bem diferente da observada em julho de 2014, quando seu preço médio caiu 0,15%. O que ocorreu foi um atraso na oscilação, por causa da alta do dólar, moeda que baliza a cotação dos principais produtos agrícolas também no mercado interno.

Outro grupo de preços que contribuiu para reduzir a inflação no mês passado é o de habitação, basicamente por causa da redução da tarifa de energia elétrica, o que ocorreu pela primeira vez desde março de 2014. Desde o abandono da política de redução de tarifas lançada no fim de 2012, que ajudou a reeleger Dilma Rousseff, mas desorganizou o setor, o consumidor vinha pagando o custo dessa aventura petista. Para evitar que o preço da energia onerasse ainda mais o orçamento das famílias e das empresas e pressionasse a inflação, o governo reduziu o PIS/Cofins das contas de luz, daí a redução do custo da energia nos índices do IBGE.

A redução da inflação em agosto foi, portanto, ocasional. O que se projeta para os próximos meses é uma alta gradual do IPCA. Na previsão de analistas consultados regularmente pelo Banco Central (BC), em dezembro a inflação oficial deverá alcançar 0,66%. A ata da reunião da semana passada do Comitê de Política Monetária do BC reconhece que a inflação deve subir no curto prazo e tende “a permanecer elevada em 2015”, o que exigirá “determinação e perseverança” para “impedir sua transmissão para prazos mais longos”. Não é de estranhar, pois, que o Copom preveja que o período de juros altos “pode ser mais intenso e mais longo que o antecipado”. 

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Editorial estadão IPCA

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