Um almoço inoportuno

A presidente Dilma Rousseff almoçou na segunda-feira, em Brasília, com seus conselheiros econômicos informais, os economistas e consultores Antônio Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo, acompanhados, desta vez, do professor Yoshiaki Nakano, da FGV de São Paulo. Conversaram sobre perspectivas e problemas do crescimento econômico e, naturalmente, sobre inflação e política anti-inflacionária. Na próxima semana o Copom deverá reunir-se para decidir se elevará os juros básicos ou se os manterá em 7,25% por mais algum tempo, à espera de uma acomodação espontânea dos preços. Uma semana antes da reunião do Copom, o encontro da presidente Dilma com seus conselheiros foi no mínimo inoportuno. Ela continua afirmando a autonomia da política monetária, mas continua também, com suas ações estabanadas, alimentando a descrença dos investidores e dos analistas independentes, como fez há poucas semanas com suas declarações à imprensa em Durban, na África do Sul.

O Estado de S.Paulo

10 Abril 2013 | 02h14

A presidente tem-se mostrado contrária à elevação dos juros para o controle da inflação. Insiste em medidas de outro tipo, como redução de encargos e de alguns preços administrados. O governo estendeu a mais setores a desoneração da folha de salários, promoveu um corte das tarifas de eletricidade e reduziu tributos sobre a cesta básica de alimentos e produtos de higiene. Segundo fontes próximas de seu gabinete, Dilma ainda manifesta a esperança de ganhar tempo com novas ações desse tipo e assim continuar evitando uma alta de juros. Seus conselheiros manifestaram opinião diferente, depois do encontro, e mostraram-se favoráveis a um leve aperto monetário para conter a alta de preços.

Bem mais preocupante que uma possível tendência de aceleração da alta de preços é a resistência da inflação, segundo Belluzzo. Há pouco tempo essa resistência foi também apontada pelo presidente do BC.

Com esses antecedentes, qualquer decisão do Copom na próxima semana poderá ser vinculada ao Palácio do Planalto. Se a taxa básica for mantida em 7,25%, terá prevalecido, mais uma vez, a ojeriza da presidente à alta dos juros. Se a taxa for aumentada, a mudança será atribuível a uma autorização sua, influenciada por seus conselheiros. Nesse caso, os artigos dos professores Delfim Netto e Yoshiaki Nakano publicados no jornal Valor de ontem serão considerados prenúncios bem informados da nova política do BC.

Em resumo: ao marcar aquele almoço a presidente Dilma Rousseff mais uma vez pôs em xeque a já desgastada imagem de um Copom com autonomia operacional para conduzir o combate à inflação.

As ações presidenciais tornam cada vez mais difícil acreditar em um BC autônomo, capaz de agir sem instruções emanadas do Palácio do Planalto. Essa autonomia existiu na prática durante os dois mandatos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele percebeu a importância política do controle da inflação. Sem isso, as políticas de aumento do salário mínimo e de transferência de renda a famílias pobres teriam fracassado, porque a alta de preços teria corroído os ganhos proporcionados por aquelas políticas. A reeleição de Lula em 2006 foi em grande parte obra do presidente do BC, Henrique Meirelles, e de seus companheiros no Copom. Parece faltar essa percepção à presidente Dilma Rousseff.

Mas é preciso adicionar um detalhe importante a esse quadro. Ao tentar a substituição da política monetária por uma ampla bateria de benefícios fiscais, Dilma comete um erro enorme. Desonerações fiscais são inúteis contra a inflação. Podem reduzir alguns preços a curto prazo, mas novos aumentos ocorrerão, porque os fatores inflacionários continuarão intactos. Em segundo lugar, cortes de impostos e contribuições afetam as contas públicas e reforçam o perigoso expansionismo fiscal apontado mais de uma vez pelo BC. Sem disciplina fiscal, sobra o aperto monetário como remédio contra a inflação. Enfim, estímulos fiscais dirigidos principalmente ao consumo, como no Brasil, são inúteis quando o desafio é aumentar a eficiência geral da economia e seu potencial de crescimento.

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