Um atoleiro no norte da África

Bourbier é a incômoda palavra que começa a se espalhar na França a respeito da intervenção militar do país no Mali. A melhor tradução é "atoleiro". Depois do entusiasmo inicial com a decisão do presidente François Hollande de ajudar o Exército malinês a deter o avanço de radicais islâmicos rumo à capital do país, Bamako, surgem dúvidas sobre se a intervenção não está indo longe demais. Hollande mandou mais soldados - o contingente total deve chegar a 2 mil - e, agora, blindados franceses participam de missões de combate.

O Estado de S.Paulo

18 Janeiro 2013 | 02h08

A título de enfrentar a ameaça terrorista no Norte da África, o presidente francês pode ter dado a um grupo de extremistas pouco expressivo a oportunidade de angariar apoio de outros radicais, transformando a ação numa "luta contra o neocolonialismo" ocidental. Na quarta-feira, 16, jihadistas tomaram um campo de gás da British Petroleum na Argélia, fazendo dezenas de reféns, entre eles 41 estrangeiros, e disseram que seu ataque era uma reação à ofensiva francesa.

O governo argelino lançou uma operação de resgate, e havia versões conflitantes sobre o resultado. Seja como for, o pior dos cenários traçados por Paris, isto é, o revide de terroristas contra interesses franceses e ocidentais, pode estar se tornando real.

O socialista Hollande, que se elegeu prometendo reduzir a participação da França em ações militares no exterior, como a que ajudou a derrubar o ditador líbio Muamar Kadafi, já começa a ser criticado por ter assumido a responsabilidade de conter os terroristas africanos. Para o ex-primeiro-ministro Dominique de Villepin, de centro-direita, Hollande foi contaminado pelo "vírus neoconservador", numa referência aos "neocons", responsáveis por empurrar os Estados Unidos para a Guerra do Iraque, vista como exemplo de "atoleiro".

No entanto, pode-se dizer que a França não tinha alternativa, já que não é possível contar mais com a liderança dos Estados Unidos em ações desse tipo, graças à "doutrina Obama", que preconiza o crescente desengajamento militar americano. A França surge assim como o único anteparo ocidental firme contra o extremismo islâmico originado no Norte da África. Hollande pode ter lá seus próprios compromissos ideológicos, mas parece ter percebido que, como chefe de Estado, tem responsabilidades incontornáveis - e a segurança da França é a principal delas.

O grande problema do conflito no Mali é sua obscuridade. O governo americano, que tenta monitorar os grupos radicais malineses, tem apenas uma compreensão "impressionista" sobre esses extremistas, segundo o New York Times. Para o secretário-assistente de Estado para assuntos africanos, Johnnie Carson, os jihadistas, afiliados à Al-Qaeda, "não demonstraram capacidade de ameaçar os interesses americanos e não ameaçaram atacar os Estados Unidos". Além disso, esses grupos ainda não têm a musculatura que a Al-Qaeda de Osama bin Laden exibia, e muitos de seus integrantes são apenas traficantes de drogas e outros criminosos que aproveitaram a oportunidade para ganhar dinheiro. Contudo, a França não quis pagar para ver e decidiu, ante a indecisão dos vizinhos do Mali, evitar que esses radicais islâmicos, já presentes na Líbia e agora na Argélia, conseguissem estabelecer uma espécie de Afeganistão, isto é, um santuário terrorista, numa região tão estratégica para os europeus.

Para a França, assim como para os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, que fornecem ajuda logística aos militares franceses, interessa limitar seus objetivos militares e internacionalizar o esforço de guerra contra os radicais islâmicos o mais rápido possível, envolvendo os países africanos, principalmente a Argélia, que costuma ser implacável com os extremistas islâmicos. O objetivo é duplo: esvaziar o discurso segundo o qual Paris age conforme velhos interesses coloniais e permitir que os soldados franceses voltem logo para casa, antes que o atoleiro os engula. Apesar de todos os dilemas e problemas, no entanto, que não reste dúvida: ante a perspectiva do fortalecimento de grupos terroristas instalados às portas da Europa, o Ocidente não poderia ficar de braços cruzados.

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