Um balanço do G-20

Foi reduzida a pó a inacreditável tentativa de Brasil e Argentina de impedir que o documento final da cúpula do Grupo dos 20 (G-20), encerrada na sexta-feira em São Petersburgo, reafirmasse seus compromissos com o livre-comércio. Em meio aos esforços para consolidar a recuperação de Estados Unidos e Europa, o G-20, em seu comunicado, fez diversas menções à necessidade de impedir que se adotem medidas protecionistas - que, por razões óbvias, contribuem para a desaceleração das economias justamente no momento em que é mais necessário dinamizá-las.

O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2013 | 02h06

O trecho em que o G-20 reafirma "total compromisso para evitar novas barreiras" ao comércio é uma derrota constrangedora para o governo petista, que acreditou que fosse possível contrapor-se aos países ricos por meio de uma aliança com a Argentina, campeã de protecionismo.

Outras passagens do comunicado servem como "pito" ao Brasil. O G-20 considera que, entre os principais desafios para a economia global, está o "lento crescimento de algumas economias emergentes", atribuído, entre outras razões, aos "desafios estruturais domésticos" - observação que serve como lembrança dos diversos gargalos da indústria brasileira.

O G-20 cobrou também que "alguns mercados emergentes" adotem "paradigmas mais consistentes" para lidar com a questão cambial. "Políticas macroeconômicas firmes e reformas estruturais vão ajudar a enfrentar a volatilidade", diz a nota, dando a entender que puxadinhos fiscais, uma especialidade do governo petista, não funcionam.

Houve menção ainda à necessidade de encontrar um equilíbrio entre os países com grandes déficits, como os Estados Unidos, e aqueles com fortes superávits comerciais - referência à China e também à Alemanha. Em relação à perspectiva da retirada dos estímulos do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) à expansão da economia americana, o G-20 expressou a necessidade de que essa reversão seja feita de maneira "cuidadosamente calibrada". A mera possibilidade de estancar a enxurrada de dólares no mercado já fez com que a moeda americana disparasse, levando os emergentes e o Fundo Monetário Internacional a cobrar cautela dos Estados Unidos.

Para o Brasil e sua persistente inflação em alta, uma mudança radical no cenário cambial é particularmente preocupante, razão pela qual a presidente Dilma Rousseff foi a São Petersburgo com a intenção de reclamar dos americanos - algo que o governo petista faz com especial empenho.

Numa cúpula marcada pela tensão com a possibilidade de intervenção militar na Síria, porém, a irritação de Dilma com os Estados Unidos - agravada pela revelação de que o governo americano monitorou as comunicações da presidente - passou despercebida.

Em conversa fora da agenda, o presidente Barack Obama prometeu a Dilma esclarecer o caso da bisbilhotice, sem maior repercussão. Já a Rússia aproveitou o episódio para, em nome dos Brics, qualificar a espionagem americana de "terrorismo". Segundo a delegação brasileira, esse termo nunca foi usado na reunião entre os Brics - ou seja, o Kremlin usou o grupo para provocar os americanos.

A disputa entre Obama e o presidente russo, Vladimir Putin, foi, aliás, o grande momento do G-20. Anfitrião da cúpula, Putin, que faz campanha contra uma ação na Síria, agora defendida por Obama, esforçou-se para constranger o presidente americano - e, ao mandar funcionários de segundo escalão receberem Obama no aeroporto, deixou clara a deterioração das relações entre os dois países.

Putin aproveitou o jantar de encerramento para pedir que cada um dos líderes expusesse sua opinião a respeito da crise síria. Em seu Twitter, o primeiro-ministro da Itália, Enrico Letta, resumiu: "No jantar do G-20, as divisões a respeito da Síria foram confirmadas". Os americanos disseram ter obtido apoio de 11 dos 20 integrantes do grupo para "uma forte resposta internacional" às atrocidades cometidas na Síria, mas mesmo entre eles há quem prefira esperar pelo aval da ONU.

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