Um bilionário consciente

Fosse outro o autor do artigo Parem de paparicar os super-ricos, publicado segunda-feira pelo jornal The New York Times e no qual se pede que os congressistas de Washington aprovem uma lei que tribute mais severamente os muito ricos, para repartir melhor os sacrifícios que o enfrentamento da crise fiscal dos Estados Unidos imporá aos americanos, talvez o texto tivesse sido desprezado como mais uma simplória manifestação de algum fracassado ou ignorado por sua irrelevância. Poderia ter servido também como pretexto para outra das estridentes manifestações do grupo ultrarradical Tea Party, contrário a qualquer tipo de aumento de imposto e que vem determinando o comportamento do Partido Republicano na oposição às medidas propostas pelo governo democrata de Barack Obama para enfrentar a crise. Sendo, porém, seu autor um dos maiores bilionários da história contemporânea, o megainvestidor Warren Buffett, e seus argumentos impressionantes, o artigo ganhou destaque mundial. E com toda a razão.

, O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2011 | 00h00

Com exemplos pessoais e dados sobre a tributação por faixas de renda ao longo de duas décadas, Buffett mostra que os americanos super-ricos, que basicamente vivem da renda de suas aplicações financeiras, pagam proporcionalmente menos impostos do que pagavam na década de 1990 e muito menos, ainda, do que pagam hoje os trabalhadores, que vivem de seus salários. "Enquanto os pobres e as classes médias lutam por nós no Afeganistão, e enquanto a maioria dos americanos luta para fechar as contas do mês, nós megarricos continuamos com extraordinárias isenções fiscais", comparou.

Buffett expõe sua situação para mostrar os desvios do sistema tributário americano. Em 2010, ele recolheu de tributos - Imposto de Renda e contribuição previdenciária - US$ 6.938.744, uma fortuna para a grande maioria da população, mas que, no seu caso, representou meros 17,4% da renda tributável. É uma alíquota mais baixa do que a que incidiu sobre o rendimento de cada uma da 20 pessoas que trabalham no seu escritório na empresa Berkshire Hathaway, cujo rendimento certamente foi inferior ao seu, mas que, na média, pagou de impostos 36% de sua renda.

Os muito ricos têm meios para reduzir a tributação, como a declaração de "lucro diferido", com alíquota de 15%, ou a aplicação no mercado futuro de ações, com alíquota também de 15% sobre até 60% da aplicação. Se o rendimento for do trabalho, a tributação será mais pesada. Enquanto os megarricos pagam 15% sobre a maior parte dos seus ganhos e recolhem muito pouco para o sistema previdenciário, os assalariados têm sua renda taxada com alíquotas de 15% a 25% e ainda recolhem uma pesada contribuição previdenciária.

Buffett calcula que a tributação sobre os 400 americanos mais ricos diminuiu de 29,2% dos rendimentos em 1992, para 21,5% no ano passado. Nesse período, seu rendimento cresceu 437%, passando de US$ 16,9 bilhões para US$ 90,9 bilhões.

Para justificar tanta generosidade com quem não precisa, se dizia que impostos altos prejudicam a geração de empregos. Buffett contra-argumenta com números: entre 1980 e 2000, quando os impostos sobre os ricos eram mais pesados, foram abertos quase 40 milhões de empregos. "Vocês sabem o que veio depois: impostos menores e menos criação de empregos." Ele lembra, com ironia, que, depois de tanto tempo no mercado, ainda está para ver um investidor "fugir de um investimento por causa do imposto". Isso não aconteceu nem entre 1975 e 1977, quando a alíquota sobre ganhos de capital era de 39,9%. O que ele quer é dinheiro, e imposto não o assusta, afirma.

Buffett quer influenciar as decisões do Congresso, sobretudo as dos 12 membros da comissão que terá a responsabilidade de elaborar um plano para cortar o déficit público americano em US$ 1,5 trilhão. Ele se diz disposto a pagar sua parte no ajuste e que muitos de seus amigos multibilionários também, pois já foram paparicados demais pelo Congresso. "Chegou a hora de o governo agir com seriedade na questão do compartilhamento dos sacrifícios." Para isso, porém, é bom não esquecer, o governo terá de enfrentar e derrotar o radicalismo do Tea Party.

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