Um BNDES para o século 21

Desfigurado pelos desmandos e pelas más escolhas do petismo, o banco estatal foi recuperado, remodelado e reorientado para atuar na mudança e na dinamização do sistema produtivo

O Estado de S.Paulo

10 Outubro 2018 | 05h00

O próximo governo poderá dispor de um excelente instrumento para modernizar a economia, o novo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Desfigurado pelos desmandos e pelas más escolhas do petismo, o banco estatal foi recuperado, remodelado e reorientado para atuar na mudança e na dinamização do sistema produtivo. Seu trabalho deverá ser afinado com uma gestão fiscal austera e avessa a generosos favores e subsídios, marcas da irresponsabilidade financeira dominante por muitos anos na administração federal. “Isso acabou. Não há volta”, disse ao Estadão/Broadcast o presidente da instituição, Dyogo Oliveira. De fato, segundo argumenta, nem sequer há espaço no Orçamento da União para um retrocesso. Tampouco há espaço para mudança da Taxa de Longo Prazo (TLP), criada para substituir a velha Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) nos financiamentos do BNDES.

Recuperado, o banco poderá retomar o papel exercido com sucesso por meio século, a partir dos anos 1950, como instrumento de industrialização e de fortalecimento econômico do Brasil. Durante esse período, sua política foi ajustada várias vezes para se adaptar a novas estratégias. Seu trabalho foi fundamental, em diferentes momentos, para a eliminação de gargalos e para a implantação de setores considerados essenciais para o desenvolvimento nacional. Profissionalismo e competência foram sempre marcas de seu corpo de funcionários e de sua administração - até a implantação do estilo petista no governo federal.

Para restabelecer o papel histórico do BNDES foi necessário um amplo e complicado trabalho de restauração, iniciado em 2016. Desse reparo surgiu um novo banco, mais enxuto e desenhado para novas formas de ação. Uma das mudanças foi a maior atenção às pequenas e microempresas. Entre 2012 e 2013 o financiamento concedido a esse grupo de clientes ficou próximo de 20% do total. Neste ano, a parcela destinada a essas companhias poderá chegar a 49%, segundo o presidente. Também deve crescer o financiamento a projetos de infraestrutura.

Prioridades foram redefinidas. A administração do banco anunciou, entre outras novidades, sua participação em um programa de desenvolvimento de startups, em colaboração com um consórcio de aceleradoras. O programa deve ser iniciado em novembro, com a seleção de 60 startups inovadoras. As empresas poderão inscrever-se num módulo de criação ou num de aceleração.

Este é um exemplo de como o BNDES vem recompondo suas prioridades, a partir de uma nova concepção de seu papel na modernização e na dinamização do Brasil. O banco pode continuar atuando para compensar deficiências do mercado, mas buscando, ao mesmo tempo, contribuir para aproximar as empresas das fontes privadas de financiamento.

Ao redefinir seu estilo de trabalho, o BNDES ajusta seus objetivos às condições e necessidades do século 21 e, ao fazê-lo, retoma, com nova roupagem, o papel estratégico exercido por meio século desde sua fundação. Esse papel foi pervertido por vários anos, com a política de apoio aos chamados campeões nacionais. Além de beneficiar com enormes subsídios empresas capazes de se financiar no mercado, essa orientação serviu à distribuição de favores a grupos favoritos da corte. Alguns desses grupos apareceram com destaque nas investigações da Lava Jato.

Parte da farra foi financiada com recursos do Tesouro, por meio do Programa de Sustentação do Investimento, criado em 2009 como reação à crise internacional. O programa durou muito mais do que devia e serviu para a transferência, ao banco, de cerca de meio trilhão de reais. Destinado a operações subsidiadas, esse montante exigiu o endividamento do Tesouro. O BNDES já devolveu boa parte desse dinheiro. Também melhorou sua carteira de empréstimos, vendeu parte dos investimentos em grandes empresas e lucrou R$ 4,76 bilhões no primeiro semestre. Se tiver juízo, o novo governo manterá essa orientação e aproveitará o BNDES recuperado para acelerar o crescimento.

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