Um bom começo

Os Estados Unidos e a China surpreenderam o mundo nesta semana ao anunciarem um acordo em que se comprometem com significativas metas de redução de emissão de gases de efeito estufa, responsáveis pelo aquecimento global. Trata-se de um acordo histórico porque, há mais de uma década, esses dois países - os maiores poluidores do mundo - são responsáveis pelos impasses que dificultam a conclusão de acordos globais para tentar reverter uma anunciada catástrofe climática.

O Estado de S.Paulo

15 Novembro 2014 | 02h02

Embora não se deva nutrir otimismo exagerado a respeito desse importante avanço, o fato é que a disposição demonstrada por americanos e chineses de trabalharem juntos para enfrentar esse problema poderá inspirar os demais países a superar suas divergências e a impulsionar um novo acordo para o clima em 2015.

O acerto sino-americano, assinado em Pequim pelos presidentes Barack Obama e Xi Jinping, prevê que os Estados Unidos cortem entre 26% e 28% das emissões de gases até 2025, dobrando o ritmo da redução com a qual o país havia se comprometido até 2020. Já a China estabeleceu como meta atingir o pico de suas emissões até no máximo 2030, e a partir de então começar a reduzi-las. Ao mesmo tempo, o país projeta que em 2030 ao menos 20% de sua energia será extraída de fontes não fósseis - solar, eólica, hídrica e nuclear.

Embora sejam metas consideráveis, não será esse compromisso, em si, que reverterá o desastre climático. O resto do mundo terá de aderir. "Encorajamos outros países a apresentarem suas próprias metas ambiciosas de redução de emissões, para superar as tradicionais desavenças e concluir um grande acordo global para o clima em 2015", escreveu em artigo o secretário de Estado americano, John Kerry, referindo-se à conferência do clima prevista para 2015 em Paris.

Não será uma tarefa fácil. A Índia, por exemplo, é o terceiro maior poluidor do mundo, mas seu governo argumenta que a responsabilidade pela maior parte da redução das emissões recai sobre as grandes potências. O ministro do Meio Ambiente indiano, Prakash Javadekar, disse que a meta principal da Índia é reduzir a pobreza: "Vinte por cento de nossa população não tem acesso à eletricidade, e essa é nossa prioridade. Nossa economia se expandirá rápido, e nossas emissões vão crescer".

Esse tipo de impasse turvou boa parte dos debates até agora. A própria China vinha colocando as coisas nesses termos, atribuindo aos países desenvolvidos a responsabilidade histórica pela aceleração da emissão de gases, razão pela qual cobrava dessas nações que pagassem sua "dívida" antes de exigir metas dos países em desenvolvimento.

Até a Conferência do Clima de Copenhague, em 2009, essa era também a posição da China. Mas Pequim decidiu alterar sua abordagem porque já iniciou a mudança de sua matriz energética, para reduzir a dependência do carvão - ainda responsável por quase 80% da energia elétrica da China e também pelos altos níveis de poluição nas grandes cidades, que tem motivado protestos de chineses. O país já investe pesado em energia solar e eólica, de olho em um mercado em expansão no mundo, e usa cada vez mais gás natural - a Rússia é seu principal parceiro.

Ademais, a parte chinesa do acordo é a mais fácil, porque não se sabe qual é o pico chinês de emissões a ser atingido até 2030. Já os EUA terão de fazer um formidável esforço para entregar o que Obama prometeu - e a Casa Branca enfrentará forte oposição dos republicanos, indispostos a negociar metas ambientais que possam afetar a indústria e o setor petrolífero. Se um republicano chegar à Presidência em 2016, o acordo poderá até mesmo ser revisto. Governada por uma ditadura, a China não tem esse problema - e aderir a um acordo desse tipo ainda confere ao país a boa imagem de uma potência preocupada com as mudanças climáticas.

Interesses e dificuldades à parte, o certo é que o acordo entre EUA e China sinaliza uma mudança importante de perspectiva num tema crucial para o futuro do planeta.

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