Um cenário de desastre

A semana começou com o mercado financeiro acuado por três notícias assustadoras, acumuladas entre sexta-feira e domingo: a retração econômica de 1,9% no segundo trimestre, surpreendente até para os pessimistas; o buraco de R$ 10 bilhões nas contas primárias do setor público, em julho; e a disposição do governo de apresentar uma proposta de lei orçamentária para 2016 com previsão de déficit. A equipe econômica já havia reduzido a meta fiscal do próximo ano de 2% para 0,7% do Produto Interno Bruto (PIB), um resultado modesto, mas aparentemente compatível com a perspectiva de mais um ano de baixa atividade. Mas nem isso seria possível sem a recriação do imposto do cheque, a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF). O abandono dessa ideia foi uma novidade positiva, mas insuficiente para compensar o peso do noticiário agourento.

O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2015 | 03h00

A segunda-feira começou com o dólar em alta e a bolsa brasileira em queda. Nada mais normal, depois de uma semana de indicadores muito ruins – sem trégua sequer no sábado e no domingo. Poucos dias antes das novas informações sobre a contração do PIB e da piora das contas públicas, o governo havia atualizado os números mais amplos do mercado de trabalho no segundo trimestre. O desemprego apurado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), conduzida em cerca de 3.500 municípios, chegou a 8,3% da população ativa.

Enquanto o dólar disparava e a bolsa caía, novos dados negativos foram apresentados ao público. Em agosto, o índice de confiança do comércio medido pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) diminuiu 4,1% e chegou ao nível mais baixo em cinco anos. O humor dos empresários consultados mostra a persistência dos problemas. Houve também uma leve diminuição do pessimismo quanto aos próximos seis meses, mas insuficiente para caracterizar uma inversão de tendência, comentou o superintendente adjunto de Ciclos Econômicos da FGV, Aloísio Campelo. Essa inversão – pode-se acrescentar – seria muito estranha, quando se acumulam previsões tão ruins sobre a produção, o emprego e o consumo.

Ainda na manhã de segunda-feira o Banco Central (BC) publicou os dados principais de sua consulta semanal, a pesquisa Focus, a economistas de instituições financeiras e de consultorias. A mediana das projeções da inflação para este ano melhorou muito ligeiramente, de 9,29% para 9,28%, mas a expectativa em relação a 2016 ficou um pouco pior, com a estimativa passando de 5,50% para 5,51%. De toda forma, a expectativa em relação aos preços continua muito ruim. O número esperado para o próximo ano é bem superior à meta oficial, de 4,5%. Além disso, a inflação menor em 2016 deve resultar de um fator positivo, a pressão mais fraca das tarifas de energia e de outros preços administrados, e de um negativo, o prosseguimento da recessão.

Segundo a mediana das projeções coletadas pela Focus, o PIB deve encolher 2,26% neste ano e 0,40% em 2016. As estimativas, quatro semanas antes, eram de redução de 1,80% em 2015 e de 0,20% no ano seguinte. A retração menor no próximo ano, é bom lembrar, ocorrerá, se os fatos confirmarem os cálculos, a partir de um valor já muito rebaixado.

Não será propriamente uma recuperação – apenas uma redução mais moderada. A reativação da economia talvez comece em 2016, mas o resultado geral será negativo. A produção industrial, pelos números da pesquisa, deve diminuir 5,57% em 2015 e crescer 0,89% no ano seguinte. Mas essa recuperação, se ocorrer, começará sobre uma base muito baixa, porque o desempenho do setor já foi muito ruim nos últimos quatro anos.

Há risco de piora? Sim, principalmente se os juros americanos subirem e afetarem o mercado internacional. O acesso ao crédito será mais difícil, o real poderá ser mais depreciado e as pressões inflacionárias serão mais fortes. Mesmo sem rebaixamento do Brasil pelas agências de classificação de risco, hipótese nada desprezível, o cenário já seria tenebroso.

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