Um começo de ano difícil

Contra esse pano de fundo, a criação de 35,6 mil empregos formais – diferença entre admissões e demissões – em fevereiro, apontada pelo Ministério do Trabalho, parece pouco significativa

O Estado de S.Paulo

01 Abril 2017 | 03h00

Com 13,5 milhões de pessoas em busca de vagas, ou 13,2% da força de trabalho, o desemprego continuou a assombrar as famílias no trimestre encerrado em fevereiro. Como se esperava, o início de recuperação observado em alguns setores ainda seria insuficiente para atenuar a desocupação. O Brasil entrou em 2017 ainda em recessão, de acordo com as últimas contas do Banco Central (BC). Seria irrealista imaginar um aumento de contratações nos primeiros meses do ano. Ao contrário. Sem surpresa, houve uma piora. Os trabalhadores em busca de atividade eram 12,9 milhões no período entre dezembro e janeiro, número equivalente a 12,6% da população ativa, isto é, ocupada ou à procura de oportunidade. Esse é o quadro revelado pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, do IBGE.

Contra esse pano de fundo, a criação de 35,6 mil empregos formais – diferença entre admissões e demissões – em fevereiro, apontada pelo Ministério do Trabalho, parece pouco significativa. Não deixa de ser, no entanto, um sinal positivo, o primeiro em muitos meses no mercado de empregos. Novos sinais desse tipo, neste ano, dependerão em boa parte da reativação industrial.

A desocupação ainda muito elevada explica em boa parte o movimento fraco do comércio. As lojas continuaram perdendo vendas em janeiro, de acordo com o último levantamento publicado pelo IBGE. No varejo restrito, o volume de vendas foi 0,7% menor que o de dezembro e 7% inferior ao de um ano antes. No varejo ampliado, com inclusão de veículos, componentes e material de construção, a queda foi de 0,2% em relação ao volume do mês anterior e de 4,8% na comparação com o de janeiro de 2016.

O confronto dos números com os de um ano antes é especialmente informativo, porque dá uma ideia mais clara das dificuldades de recuperação. Na indústria, essa comparação produziu resultados melhores. O recuo da inflação poderia ter estimulado o aumento de consumo, em outras condições. Mas, embora algumas pesquisas tenham indicado melhora das expectativas dos consumidores, a insegurança quanto ao emprego certamente continuou a favorecer a prudência. A renda, o endividamento ainda alto e o crédito curto e caro também devem ter afetado as decisões.

Pela pesquisa de emprego, a massa de renda no período entre janeiro e fevereiro foi praticamente igual à de um ano antes, descontada a inflação, mas a história é mais complicada. Essa comparação só vale, obviamente, para a população empregada – um contingente severamente reduzido nesse intervalo de um ano.

As condições de emprego e o mau desempenho do comércio varejista sugerem um cenário ainda marcado pela recessão. Esse é o quadro indicado também pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), conhecido no mercado como prévia do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo o novo relatório, divulgado na sexta-feira passada, a atividade em janeiro foi 0,26% menor que a de dezembro, na série com ajuste sazonal.

Pela mesma série, o índice foi 2,53% inferior ao de janeiro de 2016. A queda acumulada em 12 meses chegou a 4,4%. Se a comparação for feita com base na série sem ajuste, a redução acumulada fica pouco menor: 3,99%. Mas a diferença é irrelevante quanto ao significado essencial dos números. Pelas contas do BC, janeiro foi mais um mês de recessão e a perda acumulada durante um ano foi ainda muito grande.

As cifras da arrecadação federal até fevereiro mostram os sintomas de uma economia fraca, apenas com alguns primeiros sinais de melhora. Não há dúvida, entre os especialistas, quanto à perspectiva de crescimento neste ano, estimado em 0,5% pelo BC e pelo Ministério da Fazenda e em 0,7% pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Mas, apesar das expectativas de um ano de recuperação, é recomendável o máximo de cautela na gestão das contas públicas. Pelos dados econômicos disponíveis até hoje, o governo acertou ao congelar R$ 42,1 bilhões dos gastos orçados para 2017. É indispensável atingir a meta de redução do déficit federal.

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