Um debate amistoso

O primeiro debate entre os candidatos a presidente da República, transmitido pela TV Bandeirantes, surpreendeu pelo tom amistoso com que se trataram os participantes - mas isso não bastou para vencer a monotonia do encontro e muito menos para atrair a atenção do grande público. Os quatro candidatos que participaram do debate trataram de problemas que são praticamente consensuais na agenda política atual - saúde, segurança pública, educação e infraestrutura. Foi uma discussão sem ataques pessoais, jogadas ensaiadas de marketing e frases feitas destinadas a causar impacto na audiência eleitoral.

, O Estado de S.Paulo

07 de agosto de 2010 | 00h00

É certo que foram evitadas as questões polêmicas - aquelas que poderiam ter levado a críticas mais contundentes entre os competidores. Talvez por isso o debate tenha permanecido no nível da argumentação racional, e não do apelo emocional. Há que se reconhecer que houve um certo amadurecimento da disputa eleitoral, preocupando-se os candidatos mais em discutir a realidade vivida pela população do que em produzir efeitos pirotécnicos, à moda dos marqueteiros.

Como não poderia deixar de ser, Dilma Rousseff e José Serra polarizaram o debate. Mas Marina Silva e Plínio de Arruda Sampaio não ficaram à margem do encontro. Os dois candidatos com baixa colocação nas pesquisas de intenção de voto tiveram espaço e oportunidade de defender suas ideias. É claro que traquejo, desenvoltura e naturalidade no diálogo foram percebidos mais naqueles com grande experiência em disputas eleitorais - caso do candidato José Serra. Não houve, porém, momento algum em que qualquer dos debatedores tivesse sido nocauteado.

Ao contrário de muitas expectativas, a figura do presidente Luiz Inácio Lula da Silva esteve quase inteiramente fora do debate. Durante os cinco blocos do debate, o nome Lula foi mencionado apenas duas vezes - pela candidata Dilma Rousseff, é claro. Deve-se isso, de um lado, à estratégia do candidato tucano de não confrontar - mesmo quando aponta gargalos críticos e deficiências de sua administração - um governante recordista em popularidade, e, de outro lado, à estratégia da candidata situacionista de afirmar-se com personalidade política própria, e não como simples projeção de seu líder.

A candidata Dilma Rousseff enfatizou as conquistas socioeconômicas do governo, a criação de 14 milhões de empregos, o enfrentamento dos efeitos da crise econômico-financeira internacional e a recuperação da atividade produtiva - dando como exemplos o ressurgimento da indústria naval e a expansão da construção civil. Já o candidato José Serra procurou mostrar que as atuais conquistas socioeconômicas só foram possíveis graças a bases institucionais implantadas antes de 2002, como o Plano Real e outros avanços obtidos no governo Fernando Henrique. Suas críticas mais fortes ao governo atual recaíram sobre as deficiências da infraestrutura e do sistema de saúde - em especial a extinção dos mutirões de cirurgias, instituídos quando foi ministro da Saúde. Conseguiu provocar um certo desconforto na candidata governista, quando se referiu à falta de apoio do atual governo às Apaes e outras instituições da sociedade civil de proteção às pessoas portadoras de deficiências - que hoje representam, no Brasil, um contingente populacional de 30 milhões.

Mas o tom amistoso do debate se manteve até nos raros disparos de farpas. Foi quando, por exemplo, Plínio de Arruda Sampaio disse que agora se sabia por que José Serra tem a fama de hipocondríaco: "É que ele só fala em saúde."

No mesmo horário do debate da TV Bandeirantes houve a transmissão, pela TV Globo, da semifinal do Campeonato Libertadores da América, entre Internacional e São Paulo. Como era de esperar, o futebol ganhou da política por 28 pontos de audiência a 5,5, em média. De qualquer forma, espera-se que nos próximos debates entre os presidenciáveis se repita a fórmula: bom nível de discussão, temas importantes e uma atuação dos candidatos que não faça os telespectadores dormirem.

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