Um desafio para Haddad

As primeiras indicações sobre as medidas que o prefeito eleito de São Paulo, Fernando Haddad, pretende tomar, tão logo assuma seu cargo, trazem de volta o velho - mas sempre atual - problema da necessidade de conciliar o cumprimento de promessas aprovadas pelos eleitores com a preservação da continuidade administrativa, cuja ruptura com frequência acarreta sérias dificuldades, como mostra o histórico das sucessões de governos de partidos diferentes entre nós. Algumas daquelas medidas levantam outros problemas, que também devem ser discutidos.

O Estado de S.Paulo

11 Novembro 2012 | 02h05

Nada mais natural que Haddad deseje - em acordo com vereadores do PT e de outros partidos que devem apoiá-lo - introduzir na proposta de orçamento para 2013, elaborada pelo atual governo, alterações destinadas a facilitar a concretização de suas propostas. É o que fazem, e com razão, todos os eleitos. O problema é saber dosar as mudanças pretendidas. E o exemplo de quatro delas mostra a importância dos desafios que o futuro prefeito deve enfrentar para manter o equilíbrio da administração.

Se o fim prometido da taxa de inspeção veicular não se presta a maiores controvérsias, e por isso pode ser feito rapidamente, o mesmo não acontece com a implantação do bilhete único mensal, que ocupou lugar de destaque na campanha de Haddad. Esse bilhete dará a quem o adquirir o direito de fazer quantas viagens de ônibus quiser por mês, ao custo de R$ 140 (R$ 70 para estudantes), de acordo com as primeiras estimativas de assessores do futuro prefeito. Ele deve conviver com o atual bilhete único de três horas, que interessa a quem faz um número reduzido de viagens.

Além do custo elevado da medida - estimado em R$ 400 milhões, cerca de 1% do orçamento -, deve-se considerar que seu alcance será limitado, se não puder ser estendida ao sistema metroferroviário, de responsabilidade do Estado, nesse caso certamente com revisão para cima da tarifa. Com cautela, autoridades do governo estadual se dizem apenas dispostas a discutir o assunto. Certamente por temerem que a medida contribua para carrear um grande número de passageiros para o sistema já saturado do Metrô e da CPTM.

O bilhete único mensal funciona bem em outras grandes metrópoles, como Nova York e Paris, como lembram assessores de Haddad, mas é preciso considerar que essas cidades, ao contrário de São Paulo, dispõem, há muito, de um excelente sistema de transporte coletivo, que combina metrô e ônibus. O que, de imediato, levanta outra questão. A implantação do bilhete único mensal não deveria ser precedida pela tão prometida - por vários governos, de todos os matizes políticos - reforma do serviço de ônibus, que interessa à população, mas não às empresas que dominam o setor?

Já as providências que Haddad pretende tomar com relação ao projeto Nova Luz, de revitalização do centro, e às operações urbanas Faria Lima e Água Espraiada - que fazem parte de uma reforma urbana a ser encaminhada à Câmara Municipal, segundo reportagem do Estado - podem, sim, afetar diretamente a continuidade da administração, se certos cuidados não forem tomados. O Nova Luz vem se arrastando nos últimos anos, em meio a dificuldades de ordem jurídica - com liminares interrompendo seu prosseguimento - e o descontentamento de uma parte dos comerciantes da região, sem falar no problema da concentração na área do projeto e suas proximidades de usuários e traficantes de crack.

É compreensível, pois, que Haddad deseje ouvir comerciantes e moradores da região e fazer mudanças no projeto. Mas seria lamentável que essas alterações comprometessem as linhas mestras do projeto, que foram bem aceitas. Começar tudo de novo não é a melhor solução para os problemas que ele enfrenta.

No caso das operações Faria Lima e Água Espraiada, se as correções desejadas acarretarem sua paralisação, sob o argumento de que essas regiões estão saturadas, essa seria uma decisão equivocada. A verticalização da cidade, com os cuidados necessários, é positiva.

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