Um desafio para o prefeito

Praticamente resolvida a questão do reajuste da tarifa - que ficou para junho a pedido do governo federal e não deve ultrapassar a inflação registrada desde o último aumento, em janeiro de 2011 -, o problema do péssimo serviço de ônibus da capital paulista, que sempre volta à tona quando assume um novo governo, infelizmente não está sendo tratado como deveria. Até agora, pelo menos, as atenções da nova administração estão voltadas muito mais para a implantação do bilhete único mensal - uma das promessas de campanha do prefeito Fernando Haddad - do que para a renovação da concessão do serviço, que é de longe a questão mais importante. E também urgente, porque os atuais contratos vencem em julho.

O Estado de S.Paulo

27 Fevereiro 2013 | 02h08

Depois de uma fase de experiência, que não se informou ainda quando começará - e durante a qual ele estará disponível apenas para portadores de deficiência, idosos e estudantes -, o sistema do bilhete único mensal, que permitirá fazer quantas viagens de ônibus por dia seu detentor desejar, estará em funcionamento no mês de novembro. Essa demora se explica porque o cadastramento dos usuários, necessário para evitar fraudes, será "complicado", como reconhece o secretário municipal de Transportes, Jilmar Tatto. Primeiro, o usuário terá de preencher uma ficha pela internet com vários dados pessoais. Depois, será a vez do "cadastro físico", quando será colhida impressão digital para a identificação biométrica do passageiro por meio de equipamentos instalados nos veículos.

E esse não é o principal problema do bilhete. Durante a campanha eleitoral de Haddad, divulgou-se uma estimativa do valor do bilhete - R$ 140,00. Calcula-se que, por esse preço, o passageiro terá de fazer 46 viagens para que o bilhete mensal valha a pena. Ou seja, seu alcance pode se revelar mais limitado do que se alardeou. É preciso considerar ainda a adesão ou não do governo do Estado à iniciativa, ou seja, a validade do bilhete para o Metrô e os trens da CPTM, caso em que evidentemente a tarifa terá de ser revista.

Se o bilhete ficar restrito aos ônibus, serão reduzidos os benefícios para os usuários. Mas, se ele for estendido ao sistema metroferroviário, como deseja a Prefeitura, este atrairá maior número de passageiros, porque é de melhor qualidade, e ficará ainda mais sobrecarregado, o que evidentemente não interessa ao Estado.

Diante de tudo isso, é inevitável a pergunta: não teria sido preferível concentrar as atenções e os esforços na renovação das concessões, que oferece uma boa oportunidade para fazer a tão esperada, sempre prometida e nunca realizada reforma do serviço de ônibus? Na licitação a ser feita para tal, como manda a lei, que condições serão impostas aos vencedores? Até agora, comenta-se apenas que se deseja que os atuais oito consórcios sejam substituídos por três empresas. E nada foi dito sobre o que se pretende com essa mudança, se é que ela de fato ocorrerá.

O que deve ser feito para melhorar o serviço, com base no que há muito vêm repetindo os especialistas, é bem conhecido. Uma das principais medidas para isso é a revisão e redistribuição das linhas, para dar maior racionalidade e agilidade ao sistema. Como ela é de fácil execução e custo relativamente baixo, a única explicação para nunca ter sido adotada, embora prometida por sucessivos governos, só pode ser porque não interessa às concessionárias. Por que mexer num sistema altamente subsidiado, com lucro bom e garantido? Outra medida indispensável é renovar a frota, não no que se refere à idade dos veículos, o que vem sendo feito, mas a sua qualidade e adequação a esse tipo de transporte. Os novos ônibus são tão desconfortáveis quanto os antigos.

A dura verdade é que isso não foi feito até hoje porque nenhum prefeito ousou - sabe-se lá por que - enfrentar o poder das concessionárias. Fernando Haddad pode ser a exceção. Ou engrossar a lista dos que trataram com descaso um serviço que tem papel essencial a desempenhar, a curto e a médio prazos, no sistema de transporte coletivo. Ainda há tempo para fazer a escolha certa.

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