Um desvio preocupante

Há mais de uma década os responsáveis pela educação de nível universitário vêm alertando sobre as limitadas habilidades reveladas pelos estudantes que ingressam nas instituições de ensino superior do Brasil. A grande maioria desses alunos mostra enormes dificuldades em acompanhar os estudos no padrão exigido pelos cursos de graduação, o que exige um esforço adicional por parte das instituições universitárias para nivelar os conhecimentos e garantir um mínimo de eficiência e autonomia aos jovens ingressantes, muitas vezes pela introdução de disciplinas básicas ao longo dos cursos para suprir essa insuficiência.

HERMES FERREIRA FIGUEIREDO, presidente do Sindicato das Entidades Mantenedoras de Estabelecimentos de Ensino Superior no Estado de São Paulo (Semesp), O Estado de S.Paulo

28 Julho 2012 | 03h08

A comprovação de tal quadro, que dificulta a inserção desses jovens no mundo do trabalho com as competências exigidas pelo mercado, foi exposta de forma definitiva pelo Indicador de Alfabetismo Funcional (Inaf Brasil) divulgado recentemente pelo Instituto Paulo Montenegro e pela ONG Ação Educativa. Os resultados - obtidos por meio de entrevistas e testes cognitivos entre a população, com perguntas relacionadas ao cotidiano, envolvendo desde o entendimento sobre o itinerário de um ônibus até o cálculo do desconto de um produto - revelam que o aumento da escolaridade ocorrido no País não foi suficiente para assegurar aos alunos o domínio das habilidades básicas, num nível que o estudo define como Alfabetismo Pleno.

As pessoas que se enquadram nesse nível, segundo o Inaf Brasil, são aquelas cujas habilidades não mais impõem restrições para compreender e interpretar textos mais longos, analisar e relacionar informações, distinguir fatos de opiniões, realizar inferências e sínteses e interpretar tabelas, mapas e gráficos, mostrando maior planejamento e controle na resolução de problemas. E os dados obtidos mostram que, em uma década, não apenas as pessoas que cursaram somente o Ensino Fundamental I e II apresentam baixos níveis de Alfabetismo Pleno - 5% e 15%, respectivamente -, como também se verificou um decréscimo, de 49% para 35%, das que atingem o nível pleno entre as pessoas com ensino médio completo.

Se os dados do estudo mostram as lacunas da formação oferecida ao longo de todo o ensino básico, culminando com o baixo domínio, entre egressos do ensino médio, das habilidades fundamentais que esse nível de ensino deveria garantir aos estudantes que pretendem obter uma formação universitária, eles indicam também que o ensino superior, notadamente o das instituições privadas, tem sido um agente importante para atenuar a gravidade desse problema.

Apesar de também ser crítico - especialmente quando comparado ao da maioria dos países com os quais o Brasil compete em matéria de desenvolvimento econômico e social -, o índice de Alfabetização Plena entre as pessoas com ensino superior é quase o dobro do registrado entre os entrevistados com ensino médio, chegando a 62%, de acordo com esse mesmo estudo.

Em face disso, merece atenção, em primeiro lugar, a constatação de que as iniciativas adotadas no ensino básico e, especialmente, no ensino médio não têm sido suficientes para que o alfabetismo da população brasileira evolua mais rapidamente para o nível pleno, como vem sendo denunciado pelas instituições de ensino superior privado, responsáveis por 75% das matriculas de ingressantes nos cursos universitários do País. Mas o que o estudo demonstra, principalmente, é a existência de um desvio preocupante no papel das instituições de ensino superior, que deveria ser voltado exclusivamente para a formação acadêmica e a capacitação profissional da população brasileira.

O ensino superior privado tem sido o responsável pela democratização do acesso à educação universitária, reunindo hoje mais de 4,7 milhões de alunos de diversas regiões e do interior do Brasil, 1,4 milhão dos quais no Estado de São Paulo, que correspondem a 87% do alunado do Estado. Ainda assim, sabemos que esses números estão muito distantes da necessidade, considerando que, em todo o País, pouco mais de 14% dos jovens de 18 a 24 anos estão matriculados no ensino superior.

Mesmo ressaltando o importante significado do efeito obtido pelo ensino superior privado com relação ao objetivo de favorecer a expansão das oportunidades de Alfabetização Plena para a população brasileira, é fundamental que as suas instituições não sejam obrigadas a se desviar das suas funções para garantir, como mostram os dados do Inaf Brasil, alguma chance de inserção na cultura letrada aos estudantes que buscam sua inclusão social e ascensão profissional por meio de um diploma universitário.

O ensino superior privado deve manter-se como peça fundamental para atender à demanda por educação universitária da população que conclui o ensino médio, especialmente diante da dificuldade do País em prover uma maior expansão da oferta de ensino público. E sabemos que ainda temos pela frente muitos desafios a enfrentar para que o Brasil avance em relação a economias mais competitivas, que já resolveram os seus problemas educacionais, e garanta também as condições necessárias para absorver esses novos contingentes de egressos do ensino médio, proporcionando-lhes acesso a novos conhecimentos em nível universitário e, consequentemente, melhores oportunidades de ascensão social.

Portanto, como está evidenciado nos indicadores revelados por esse importante estudo acima citado, as instituições do setor não podem continuar a se desviar da sua missão de contribuir para o desenvolvimento cultural, social e econômico do Brasil por meio da educação superior, para atuarem também como alfabetizadores desses estudantes.

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