Um dia de cão na cidade

São Paulo viveu, sexta-feira, um dia sem lei ou, se se preferir, um dia em que a lei foi feita por motoboys. O que vem a dar no mesmo, porque não se pode chamar de lei a vontade imposta por esse grupo, que paralisou durante duas horas dois dos pontos mais movimentados da cidade - a Avenida Paulista e boa parte da Avenida 23 de Maio -, com repercussões em amplas áreas adjacentes. Enfim, foi um dia infeliz para a maior cidade do País, tratada como se fosse um reles vilarejo entregue aos caprichos de um bando de valentões.

O Estado de S.Paulo

03 Fevereiro 2013 | 02h05

Para protestar contra a implantação de novas regras para o serviço de motofrete - ironicamente destinadas a aumentar a sua segurança -, cerca de 2 mil motoboys, segundo cálculo da Polícia Militar, saíram por volta das 10h30 do Brooklin, onde fica a sede do sindicato da categoria, o Sindimoto, em direção à Avenida Paulista. Os maiores transtornos ao trânsito começaram por volta das 11h30, quando os motoboys interromperam a circulação em parte da Avenida 23 de Maio, com o apoio de carros de som e bandeiras da CUT.

Na Paulista, o caos provocado por aquilo que foi muito mais uma baderna do que uma manifestação começou por volta das 12 horas e foi até as 14 horas, um dos períodos de maior movimento nessa via. Durante todo esse tempo, os motoboys reinaram absolutos na chamada avenida-símbolo de São Paulo. Pintaram e bordaram, como se diz. Chegaram a interromper totalmente o trânsito nos dois sentidos da avenida. É fácil imaginar as consequências desastrosas desse comportamento irresponsável no entorno, primeiro da 23 de Maio e depois da Paulista.

Onde estava a polícia? Ninguém sabe, ninguém viu. Ou melhor, alguns policiais deram o ar de sua graça quando a Paulista foi fechada. Mas o tempo suficiente apenas para convencer com gentileza os motoboys a liberar as pistas de um dos lados da avenida. As centenas de milhares de pessoas que se encontravam naquela região tiveram de, paradas nos congestionamentos, engolir e ruminar o desaforo de ser assim tratadas, ante a indiferença das autoridades.

O governo do Estado, a quem cabe garantir a ordem pública e o direito elementar das pessoas de circular livremente, não pode alegar que foi pego de surpresa. Na semana que precedeu a "manifestação", os motoboys e seu sindicato deixaram clara sua intenção de realizá-la para, por meio dessa chantagem, conseguir mais um adiamento da entrada em vigor da regulamentação de sua atividade, que se arrasta desde 2010. No dia anterior, até mesmo o trajeto - do Brooklin à Paulista - era conhecido.

Como, apesar de tudo isso, o governo não tomou nenhuma providência para impedir o protesto selvagem, por meio da força policial, só se pode concluir que estamos diante de uma omissão deliberada. Sabe-se lá por que. Talvez pelo medo de a repressão aos baderneiros "pegar mal". Se não foi por isso, por que então? O governo do Estado tem a obrigação de dizer aos cidadãos paulistanos por que agiu dessa forma. Afinal, entre outras coisas, é para ser protegido pela polícia contra baderneiros como aqueles motoboys que eles pagam pesados impostos.

Na 23 de Maio e, principalmente, na Paulista, o verdadeiro poder que garante - ou não, como nesse caso - a livre circulação das pessoas foi exercido, na sexta-feira, pelo presidente do Sindimoto, Gilberto Almeida do Santos, e não pelo governador Geraldo Alckmin. Pouco importa que o sindicalista, habilidoso, não assuma diretamente a responsabilidade pelos abusos de seus comandados. Salta aos olhos que uma "manifestação" como aquela não surge do nada, que tem de ter por trás o poder de organização de um sindicato.

E pouco importa também a natureza das reivindicações. Nada justifica um protesto selvagem como aquele. A liberdade de manifestação não exclui regras. E a mais elementar é a que reza que o direito de um termina onde começa o do outro. Os motoboys - ou qualquer outro grupo - não podem pisotear, como fizeram, os direitos de centenas de milhares de paulistanos.

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