Um difícil divórcio

O Reino Unido não quer ficar com um pé dentro e outro fora da UE

O Estado de S.Paulo

20 Janeiro 2017 | 03h00

O discurso no qual a primeira-ministra do Reino Unido, Theresa May, anunciou as linhas gerais do plano de retirada de seu país da União Europeia (UE), o Brexit – seguindo a decisão do referendo de 23 de junho passado –, provocou as reações já esperadas. De alívio, porque agora as coisas ficaram mais claras sobre a maneira de ver dos britânicos a respeito da questão, como assinalaram seus ainda parceiros europeus. E também a da certeza de que esse divórcio exigirá negociações duras e difíceis.

O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, resumiu bem o sentimento e as intenções dos líderes europeus, depois de uma espera de sete meses desde o referendo, ao dizer que o discurso de May “trouxe enfim um pouco de clareza sobre os planos britânicos”. E ao acrescentar que o que cabe agora aos 27 membros que permanecem na organização “é reforçar a coesão da União Europeia e preservar a integridade do mercado único”.

As regras do jogo ficaram claras, mas isso não diminuiu nem um pouco as dificuldades. A primeira-ministra britânica pode ter demorado, mas não hesitou em tirar todas as consequências lógicas do referendo, sem rodeios, e em expô-las igualmente em linguagem franca e direta. O Reino Unido não quer ficar com um pé dentro e outro fora da UE e, por isso, deixará de ser membro do mercado único e estabelecerá as limitações desejadas pelos britânicos à imigração de cidadãos europeus. Esse foi um dos pontos centrais do referendo. A UE se recusava a separar as duas coisas, e May as descartou. Vai deixar também a Corte de Justiça da UE.

Mas seu país, ao mesmo tempo que se abre para acordos com outros países – em especial com os Estados Unidos, com a simpatia já declarada de Donaldo Trump –, buscará também um acordo de livre-comércio com a UE para obter “o maior acesso possível ao mercado único na base da reciprocidade”. May não deu detalhes, porém, sobre o comportamento de seu governo quanto a um problema de particular importância para o Reino Unido: a situação do mercado financeiro de Londres, a City, em suas relações com a UE.

Como seria de esperar da parte de um grande país, May mandou um recado a seus ainda parceiros: se tentarem punir o Reino Unido, impedindo seu acesso ao mercado único, para assim dissuadir outros membros da UE a deixar a organização, a resposta será dura. Nesse caso, ela ameaça transformar seu país numa espécie de paraíso fiscal, o que traria sérios prejuízos à UE.

Esses pontos bastam para dar uma ideia das dificuldades que marcarão as negociações. É normal que nessa fase os dois lados procurem marcar posição de maneira firme, e até ameaçadora, mas o que está em jogo é suficientemente importante para em seguida fazê-los buscar um entendimento. Há grandes interesses comuns em jogo. Um exemplo: a UE absorve 46% das exportações britânicas de bens e serviços. Nos planos político, diplomático e militar – basta lembrar que o Reino Unido e a França são as únicas potências nucleares europeias e membros do Conselho de Segurança da ONU – há também fortes laços entre as duas partes.

Por isso, apesar de suas posições firmes, a primeira-ministra britânica fez questão de deixar muitas portas abertas. Mas mesmo assim é inevitável a conclusão de que todos os envolvidos sairão perdendo nesse divórcio. Os britânicos se livram da sufocante “burocracia de Bruxelas” – da qual muitos outros membros da UE também se queixam –, retomam liberdade de movimentos para buscar novos caminhos, mas o fim do pleno acesso a um mercado de 500 milhões de pessoas não é pouca coisa.

Quanto à UE, não há como disfarçar o abalo que representa a saída dos britânicos. Pelo seu peso específico e pela força de seu exemplo, que encontra eco em outros países e faz temer pelo futuro da UE. Eco forte na Holanda, mesmo na Itália, e principalmente na França, onde uma possível vitória de Marine le Pen nas eleições presidenciais deste ano pode repetir ali o Brexit.

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