Um eleitor chamado revólver

Bolsonaro, que brinca de bangue-bangue, foi vítima de um atentado que quase o matou

EUGÊNIO BUCCI (*), O Estado de S.Paulo

11 Outubro 2018 | 05h00

Nas redes sociais e em grupos de WhatsApp circulam vídeos e fotos de armas dentro das indevassáveis cabines eleitorais. Num dos filmetes, um cidadão usa o cano de uma pistola para apertar o 1 e depois o 7. O retrato do candidato do PSL aparece ao fundo. Então, o eleitor exibe o trabuco para a câmera, num perfil em que se podem ver detalhes do modelo. O pistoleiro balança seu fetiche de um lado para o outro, num vaivém suave. A impressão que fica no espectador é de que o trabuco faz que sim com a cabeça que não tem.

Talvez não fique por isso mesmo. No domingo mesmo, dia do primeiro turno, o vice-procurador eleitoral do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Humberto Jacques de Medeiros, afirmou à reportagem deste jornal que as autoridades tomarão providências. Tomara que a investigação não se perca ad infinitum, como aconteceu com o inquérito sobre o assassinato de Marielle Franco, no Rio de Janeiro, até hoje sem conclusão alguma. Tomara que o TSE consiga localizar e punir os infratores. Mesmo assim, porém, mesmo que cumpra seu papel, a Justiça Eleitoral não tem como refrear a avalanche destruidora (tanática) que se encontra em marcha. As tampas dos bueiros cederam e, lá do fundo, das trevas, dos subterrâneos dos nossos piores ressentimentos, irrompe a lava que vai reduzir a cinzas o pensamento, as instituições e a cultura política.

Na madrugada do dia 8, por volta das 3 da manhã, pouco depois do fechamento das urnas, o mestre de capoeira Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, o Moa do Katendê, personagem ilustre da Cidade da Bahia, levou 12 facadas e morreu num bar da Avenida Vasco da Gama, próximo ao Dique do Tororó, em Salvador. Segundo o boletim de ocorrência, o crime foi precedido de uma discussão eleitoral. Moa tinha declarado seu voto em Fernando Haddad. O suspeito, que foi preso, também segundo os registros da ocorrência, entrou no bar gritando o nome de Bolsonaro.

Nas ruas, gente comum relata incidentes alarmantes. Uma jovem motorista, sozinha em seu carro com um adesivo “#elenão” no vidro, foi intimidada por outro motorista que bateu em seu para-choque traseiro e gritou desaforos. Ameaças verbais de estupro se alastram. Infâmias se amontoam. Um dos responsáveis por quebrar a placa em homenagem a Marielle Franco, no Rio de Janeiro, e depois posar para fotos com a placa partida nas mãos, o jovem Rodrigo Amorim, foi eleito para a Assembleia Legislativa do Rio com 140 mil votos. A profanação - o ato de violar a memória fúnebre de um semelhante - vira palanque.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) traz um cômputo também alarmante. Segundo a entidade, profissionais de imprensa que cobriam as eleições sofreram 137 agressões durante a campanha. Dessas, 75 foram feitas virtualmente, pela internet. Entre estas, duas são especialmente repulsivas. Marina Dias, de Minas Gerais, foi enxovalhada nas redes por ter sido confundida com a repórter homônima da Folha de S.Paulo, autora de reportagem sobre a ex-mulher de Jair Bolsonaro, que durante o processo de divórcio se declarou ameaçada e acusou o parlamentar de roubo - hoje ela nega essas acusações e diz que, na época, mentiu. Miriam Leitão, da Globo, que identifica em Bolsonaro um “risco à democracia”, sofre hostilizações covardes.

Dentro do total de 137 agressões, a Abraji arrola 62 ataques físicos. A violência campeia. Vai saindo de controle. O próprio Jair Bolsonaro, que a toda hora brinca de bangue-bangue com os indicadores em riste, gesticulando como se atirasse, e toma emprestado um tripé de câmera fotográfica para fazer de conta que dispara com uma metralhadora, o próprio presidenciável que enaltece a truculência policial como solução para a criminalidade, foi vítima, ele mesmo, de um atentado à faca que quase o matou. Salvou-se - ainda bem -, mas não dá sinais de ter entendido a natureza da erupção vulcânica que se avizinha e produzirá mutilações em gente de todos os lados e em todos os níveis da vida institucional do País. Bolsonaro segue em sua toada incendiária, de forma tão convicta quanto alienada.

Supor que uma liderança política disponha dos meios para dirigir cirúrgica e meticulosamente a violência para alvos isolados é o mais comum entre os muitos erros do delírio autoritário. Uma vez destampada - e destampada pelo destempero dos discursos de ódio -, a truculência pulsional não se civiliza mais. Ao contrário, ela incinera também os resquícios de civilização que encontra. Ninguém está a salvo da devastação que se desenha no horizonte. Não haverá um lado vencedor, pois a própria configuração cultural que nos fornece o paradigma para divisar o que é um lado e o que é o outro vai virar pó no meio disso tudo.

O delírio em curso - que, em vez de sublimar a violência pulsional em atos políticos, vem dissolvendo a política em violência generalizante - faz crer que o autoritarismo resolve os problemas da corrupção na política. Ora, o que deveríamos buscar é justamente o oposto. A única esperança estaria no oposto. Olhemos para o mundo ao redor. Nos grandes países da atualidade, a corrupção só foi combatida com eficiência onde se preservaram a transparência dos atos de gestão praticados no âmbito do Estado, a independência total do Poder Judiciário, a liberdade de imprensa para fiscalizar o poder e a autonomia administrativa do Ministério Público para propor ações contra quem quer que seja. Sem esses institutos a corrupção se agravará. E só a democracia os assegura. O autoritarismo os atropela.

Não, o revólver que vota na urna eletrônica não pode “animar” a democracia. Pode matá-la, isso sim. Simbolicamente e fisicamente. A violência generalizada, cujo agente é o homem comum, autorizada e abençoada por um discurso de poder, eclode como a expressão terminal da sociedade civil corrompida, desejosa de formas ainda piores de corrupção.

(*) JORNALISTA, É PROFESSOR DA ECA-USP

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