Um espetáculo deprimente

A desfaçatez do deputado afastado Eduardo Cunha é uma afronta ao Congresso Nacional e aos homens de bem do País. O depoimento em defesa própria que o parlamentar fluminense teve a impudência de prestar perante o Conselho de Ética da Câmara dos Deputados inscreve-se nos anais do Parlamento como uma página negra que expõe toda a extensão da sordidez que a corrupção projeta sobre a representação popular que se desvirtua para atender unicamente a interesses pessoais e do grupo de apaniguados que gravitam na órbita de sua influência espúria.

O Estado de S. Paulo

21 Maio 2016 | 03h00

Investigado por corrupção em várias operações policiais e acusado de manter contas irregulares na Suíça, o nefasto Eduardo Cunha tornou-se, no início de março, por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF), o primeiro parlamentar réu da Lava Jato, de uma lista de 38 investigados. Dois meses depois, atendendo a pedido do procurador-geral da República relativo à mesma investigação, o STF, mais uma vez por unanimidade, determinou a suspensão do mandato do réu Cunha e, por consequência, seu afastamento da Presidência da Câmara. Foi a Suprema Corte, portanto, que se encarregou de tornar públicas e notórias as suspeitas que cercam Eduardo Cunha.

O Conselho de Ética da Câmara está desde novembro discutindo o pedido da cassação do mandato de Eduardo Cunha por falta de decoro parlamentar, sob a acusação de ter mentido à CPI da Petrobrás, quando negou ter contas em instituições financeiras na Suíça. Na quinta-feira passada, finalmente, o Conselho ouviu a defesa de Cunha, assumida por ele próprio com a ousadia de quem manda na Casa, mesmo estando afastado da Presidência.

Eduardo Cunha expôs seus argumentos lançando mão, sem o menor escrúpulo, dos mais óbvios recursos da tergiversação, do jogo de palavras, de cínicos sofismas. Quando não havia outra saída, pura e simplesmente ignorava os questionamentos, com petulância e insolência. Usou e abusou, por exemplo, do expediente de desqualificar acusações feitas de viva voz com o argumento de que procediam de “inimigos”.

A votação da admissibilidade do processo de impeachment de Dilma Rousseff na Câmara, por muitos considerada deplorável por causa do nível das manifestações dos deputados, perde disparado para o desavergonhado depoimento de Eduardo Cunha perante o Conselho de Ética, em termos de comprometimento da imagem de uma instituição fundamental do sistema democrático. Eduardo Cunha – hoje a figura pública mais repudiada pelos brasileiros, mais até mesmo do que a presidente afastada – demonstrou seu cabal desprezo pelos princípios mais elementares da ética na vida pública – como, por exemplo, não mentir – e seu desrespeito a sua condição de representante do povo.

Como se o deplorável desempenho de Cunha não fosse suficiente para cobrir de vergonha a Câmara dos Deputados, o bando de asseclas do capo mafioso se esforçou para protegê-lo com demonstrações de sabujice oferecidas em retribuição às prebendas que recebem na forma de vantagens, favorecimentos e recursos para suas campanhas eleitorais. Ou alguém acredita que a fidelidade a Eduardo Cunha se deve a pura devoção?

É triste verificar que, no momento em que o Brasil vive uma das mais graves crises de sua história, o êxito do governo interino de Michel Temer pode depender, em grande medida, dos votos que Eduardo Cunha controla na Câmara. Ou seja, da fidelidade espúria que lhe dedica um grupo de parlamentares comprometidos com interesses vis, que colocam acima dos interesses nacionais. 

Resta esperar que Eduardo Cunha acabe derrotado pela própria arrogância e fanfarronice, que escancarou ao desafiar a Suprema Corte com a ameaça de voltar a ocupar seu gabinete na Câmara, a partir de segunda-feira, ainda estando com o mandato suspenso. Os ministros do STF podem acabar se dando conta de que a suspensão do mandato foi insuficiente para impedir que esse réu da Lava Jato continue exercendo seu poder despudoradamente, em benefício próprio.

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