Um exercício acadêmico sobre a velha geopolítica

No artigo anterior (Estado, 22/9), dizíamos que o adiamento da visita da presidente Dilma Rousseff aos EUA indicava mudança no mapa geopolítico da América do Sul.

Oliveiros S. Ferreira*, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2013 | 02h12

Artigo de Kellie Meiman Hock (ex-diplomata e sócia-gerente de empresa mundial de consultoria estratégica) publicado no jornal Valor (19/9) dá argumento ao que queremos discutir: "Primeiro, por mais contraintuitivo que possa parecer, devemos (EUA e Brasil) ter uma séria discussão bilateral sobre a possibilidade de um reforço na cooperação em defesa. (...) os relatos preocupantes sobre a monitoração da NSA poderiam ter sido administrados de forma menos conflituosa, caso nossos governos colaborassem de forma mais estreita em questões de segurança, criminais e de defesa". A ser verdadeira a preocupação, a NSA buscava apenas informações que servissem à segurança e defesa dos EUA.

No quê e por que o Brasil preocuparia a NSA? Pouco antes da 2.ª Guerra, o Comando Militar dos EUA elaborou os planos Arco-íris e Pote de Ouro, que previam, um, a chegada de tropas alemãs ao Canal do Panamá; outro, o estabelecimento da primeira linha de defesa do território norte-americano no Paralelo 10 Sul, obrigando à ocupação de parte do Nordeste brasileiro. A evolução da tecnologia e da arte militares tornou essa hipótese de guerra sem sentido. Não eliminou, porém, um elemento importante para quem cuida de segurança e defesa - o espaço, que não deve ser compreendido apenas como território. Nele se compreendem recursos naturais e população, afora dever sempre ser visto a partir de sua posição.

Dessa perspectiva, o Brasil é importante em qualquer estudo geopolítico, seja pela extensão territorial, seja pela posição que ocupa na América do Sul, podendo projetar poder. Foi, com certeza, tendo em mente o espaço (extensão e posição) que os EUA sempre procuraram, especialmente depois de 1939, ter boas relações, podendo chegar a ser especiais, com o Brasil. Hoje, seguramente, associam espaço à possibilidade de Brasília influenciar políticas, se não contrárias, ao menos restritivas à política externa dos EUA.

Foi igualmente tendo em conta esses elementos, além da projeção internacional que o Brasil conseguira nos governos anteriores, que a política externa do governo Lula, continuada pelo atual até o episódio NSA, procurou distanciar-se dos EUA sem dar margem a atritos sérios e, ao mesmo tempo, buscando fazer que o País fosse reconhecido e se mantivesse como a grande potência no Hemisfério Sul Ocidental. A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos - forma de engessar a OEA e trazer Cuba para um mais íntimo convívio sul-americano - e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul) foram, até agora, os ativos construídos, que só terão sentido se for considerado esse objetivo.

A ação conjunta com a Turquia para mediar a crise com o Irã e o empenho do Brasil em fazer do Brics uma organização capaz de diminuir a importância e a influência do FMI e do Bird - apesar das dificuldades para constituir um fundo financeiro de auxílio mútuo e um banco de desenvolvimento próprio - com certeza levaram os responsáveis pela segurança e defesa dos EUA a não mais ver o Brasil como Estado sempre confiável. É como se, em seus "Moody's" estratégicos, o Brasil passasse de AA+ para AA.

Alguns "falcões" poderão insistir em que se considerem outras posições do Planalto, tais como a insistência em se opor a qualquer intervenção armada na Síria, somando vozes às da Rússia e da China, e o adiamento da visita a Washington. Se sua posição for predominante, o Brasil será visto não mais como AA, mas sim como A+. Mais ainda: o fato de a Rússia ter proposto que o País participe da comissão que deverá investigar o armamento químico da Síria indica que Putin pode estar classificando o Brasil, no seu "Moody's" particular, como AA+. Afinal, pertence ao Brics e ao Mercosul...

O novo mapa pode ser traçado a partir da criação do acordo comercial Chile, Peru, Colômbia e México. Esquecendo por ora o México (e o Nafta, convém lembrar), o mapa geopolítico mostra-nos duas Américas: a Transandina e a Cisandina, esta ligada ao Brics. Mais do que cartográfica, a divisão deve ser vista como política, porque o bolivarianismo é uma proposta política que busca ter com o Mercosul, depois do ingresso da Venezuela, expressão política internacional. Deve-se notar que, morto Chávez, o bolivarianismo por assim dizer ficou órfão de liderança - falta-lhe quem agrida retoricamente os EUA, ainda que mantendo com eles boas relações comerciais.

O episódio da espionagem de iniciativa da NSA forneceu à presidente Rousseff, ao que tudo indica, a oportunidade de substituir o falecido líder venezuelano. Dois episódios permitem essa conclusão, ainda que audaciosa: o ultimato a Obama em São Petersburgo, depois de um enfrentamento ostensivo em resposta à espionagem, e, agora, o convite para que o Paraguai assuma a presidência pro tempore do Mercosul em dezembro, ocasião em que a Argentina deveria assumir a função. Essa seria, na opinião da presidente, a fórmula capaz de permitir a reintegração definitiva do Paraguai no bloco.

A proposta, pelo que se pode deduzir, é pessoal, da sra. Rousseff, feita sem consulta prévia a Christina Kirchner. Se a sra. Kirchner foi surpreendida com a informação, estamos diante de uma descortesia. Essa descortesia, associada ao ultimato, caracterizaria não uma defesa firme da soberania nacional, como alguns supõem, mas exclusivamente, como poderiam apontar os gregos antigos, um comportamento governado por húbris ("orgulho arrogante ou autoconfiança excessiva", conforme registra o dicionário).

*Oliveiros S. Ferreira é professor da USP e da PUC-SP e é membro do Gabinete e Oficina de Livre Pensamento Estratégico. E-mail: www.oliveiros.com.br

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.