Um fiasco olímpico

O Comitê Olímpico Internacional (COI) acompanhará passo a passo as obras necessárias para que se dispute a Olimpíada de 2016 no Rio, tentando evitar a confirmação dos temores de federações esportivas do mundo inteiro, preocupadas com a perspectiva do fiasco total na organização do evento. O presidente do COI, Thomas Bach, tomou todas as precauções possíveis para não melindrar os organizadores e as autoridades cariocas, evitando a palavra "intervenção". Mas, depois de uma reunião do comitê executivo na Turquia, deixou claro que a entidade tomará as rédeas da organização dos Jogos Olímpicos, ao anunciar um pacote de medidas para acelerar as obras na cidade. Nas próximas semanas, será conhecida a composição de forças-tarefa para fazer o que deixou de ser feito em quase cinco anos, desde o anúncio da escolha. Para o Rio será enviado pelo COI um administrador de projetos "com experiência em construções, para monitorar, no dia a dia, os progressos das obras de infraestrutura". Segundo Bach, "o COI vai assumir o papel principal na coordenação dos esforços de todos".

O Estado de S.Paulo

14 Abril 2014 | 02h07

O anúncio foi feito porque a cúpula da entidade está alarmada com os atrasos dos preparativos para os Jogos. Um dos principais atrativos da candidatura da segunda maior cidade brasileira seria a vantagem de realizar as disputas de todas as modalidades num território com 25 quilômetros de raio. Isso evitaria que algumas competições tivessem de ser sediadas longe do local onde se instalarão a Vila Olímpica e os locais da maioria dos torneios. Em 2012, canoagem, ciclismo, remo e iatismo foram disputados fora de Londres. Em 2008, Pequim não sediou as provas de hipismo e iatismo. Apenas a final do torneio de futebol costuma ser jogada na sede, mas com as partidas anteriores marcadas para fora dela.

Entusiasmadas com as características especiais que permitiam ao Rio concentrar os Jogos Olímpicos, as federações internacionais agora se veem confrontadas com atrasos no cronograma das obras e de instalação dos equipamentos. A dois anos do evento no Rio, o panorama assustou os membros do COI, alertados pelos aflitos avisos das federações e pelas más notícias das quais o mundo tem tomado conhecimento sobre a Copa do Mundo no Brasil. Em vez de ameaçar organizadores e autoridades cariocas com tapas no traseiro pelos atrasos das obras para a Copa, como fez o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, os dirigentes olímpicos resolveram assumir o controle sobre as construções olímpicas para poupar o Brasil do vexame internacional de pedir ajuda a outros países na hipótese de não dispor de instalações prontas para a disputa no prazo previsto.

Em 2009, em Copenhague, na Dinamarca, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva capitalizou politicamente a escolha do Rio para sediar a Olimpíada, um feito similar à indicação da Fifa para o Brasil sediar a Copa em 2014. Uma grande festa popular na Praia de Copacabana comemorou a vitória sobre Madri, Chicago e Tóquio. Mais de quatro anos e meio depois, o prefeito Eduardo Paes, aliado dos petistas no poder federal, preferiu contemporizar e aceitar a indicação do diretor executivo de Jogos Olímpicos do COI, Gilbert Felli, para tentar evitar o malogro temido.

Há três anos, a presidente Dilma Rousseff nomeou o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles para presidir a tal Autoridade Pública Olímpica (APO). Desde a nomeação, não ficou claro para que serve tal órgão e Meirelles discretamente abandonou o cargo. Outra executiva de renome, Maria Sílvia Bastos Marques, que assumiu a Empresa Olímpica Municipal (EOM) também em 2011, pediu demissão tão discretamente quanto Meirelles. Os Parques Olímpicos de Deodoro e da Barra, principais instalações dos Jogos, ainda não saíram do papel. Licitação para obras viárias do entorno do primeiro só foi aberta este mês e as arenas esportivas em si nem sequer foram licitadas. É óbvio que isso reforça os temores de o Brasil vir a pagar o maior mico da História, ao se mostrar incapaz de organizar uma Olimpíada.

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