Um jornalista que viveu para o jornalismo

"Há duas maneiras de se fazer política: ou se vive dela ou se vive para ela" - disse Max Weber na célebre conferência sobre a política como vocação, que pronunciou em Munique no ano de 1919, meses antes de sua morte.

JOSÉ EDUARDO FARIA *,

12 Junho 2013 | 02h07

Quem vive da política faz dela uma profissão no sentido moral e material. Não é necessariamente desonesto, diz Weber, mas se vê obrigado a tergiversar e a ceder, na medida em que a política é "fonte regular e garantida de rendas" e de "empregos de toda espécie em partidos, jornais, cooperativas, organizações de seguro social, municipalidades ou administração do Estado". Já quem vive para a política tende a transformá-la em objetivo de vida - entre outros motivos "porque o exercício dessa atividade lhe permite achar equilíbrio interno e exprimir valor pessoal, colocando-se a serviço de uma causa que dá significação à sua vida".

Lembrei-me da distinção de Weber há sete anos, no depoimento que dei sobre Ruy Mesquita por ocasião da homenagem que lhe foi prestada pelo Woodrow Wilson International Center for Scholars. Tendo trabalhado diretamente sob seu comando por mais de três décadas e meia, diversas vezes o vi dizer que o Estadão, mais do que uma empresa, era um veículo para a defesa das liberdades públicas. Recorrendo à distinção weberiana como metáfora, Ruy Mesquita não viveu do jornalismo, viveu para o jornalismo. Não tinha a ambição da riqueza. Nem a do exercício do poder. Mas dedicou a vida a tentar orientá-lo com base em algumas premissas éticas e doutrinárias.

Essas premissas são as que recebeu de seu pai, das quais se destacam a ênfase às garantias fundamentais, ao direito de manifestação do pensamento, ao livre jogo de mercado e à educação - esta por ele vista como mecanismo de formação de elites gerenciais, técnicas e humanistas do País e de emancipação social das novas gerações e preparação para o exercício efetivo da democracia. Jornalismo e cultura foram seus campos de atuação como diretor do JT e do Estadão, num período que compreendeu a 2.ª Guerra (anos 40), a guerra fria (anos 50/60), a ditadura militar (anos 70), a queda do Muro de Berlim (anos 80), a globalização dos mercados (anos 90) e um avassalador processo de destruição criadora que revolucionou os meios de comunicação, levando a economia a operar em tempo real.

A diferença entre Júlio de Mesquita Filho e Ruy Mesquita é que o primeiro - herdeiro dos valores da Revolução Francesa - teve a formação influenciada por um contexto europeu turbulento, marcado pela crise econômica do final do século 19, pelos subsequentes efeitos sociais e políticos que levaram à 1.ª Guerra, pelas dificuldades de reconstrução da paz e pelas barbáries totalitárias. O segundo viveu os desdobramentos socioeconômicos da Revolução de 30, que alterou a identidade geo-ocupacional do País, convertendo uma sociedade agrária numa sociedade urbano industrial.

Foi por isso que, conhecedor do debate travado nos anos 40 entre Eugênio Gudin e Roberto Simonsen sobre os limites da intervenção do Estado na economia, Ruy Mesquita fez uma inflexão em sua visão de mundo nos anos 70. A fase da maturidade coincidiu com o fracasso do 2.º Plano Nacional de Desenvolvimento, que de certo modo aspirava exponenciar o modelo varguista de industrialização tardia, por meio de empresas públicas. Aquele foi o momento em que também passou a dizer que, em vez de ter criado um jornal inovador como o JT, deveria ter lançado um jornal econômico.

A consciência de que a industrialização mudara estruturalmente a sociedade, provocando urbanização, mudando a pauta moral do País, acarretando novos tipos de conflito e gerando problemas de governabilidade, foi o passo à frente em relação ao legado de seu pai. Poucos se lembram, mas esse passo foi marcado por Ruy Mesquita num seminário que promoveu em 1981, assessorado por Pérsio Arida e por mim, com a presença de Celso Furtado, Mário Henrique Simonsen, Albert Fishlow e Michael Piore. Autores como Tocqueville, Hayek e Aron continuaram sendo citados por Ruy, mas o foco de sua atenção deslocou-se para questões como abertura econômica, austeridade monetária, inovação tecnológica e crescimento. O deslocamento foi tão acentuado que o levou a relegar os temas internacionais e até a subestimar o papel de seu jornal na transição democrática.

Inflexão semelhante ocorreu no plano pessoal, quando chegou à fase da maturidade. Sem abandonar o tom sempre afirmativo, passou a ouvir mais e a tomar decisões que seriam inimagináveis décadas antes. Como exemplo, lembro-me de um episódio ocorrido há 35 anos, quando Otavinho Frias consultou-me sobre a possibilidade de ser apresentado a Ruy, independentemente da rivalidade comercial entre o Estadão e a Folha e de farpas trocadas por seus acionistas. Dias após ter promovido um jantar entre Otavinho e Ruysito, Fernão e Rodrigo, levei o herdeiro da Folha à sala do dr. Ruy na sede da empresa e a conversa fluiu serena e amistosa. A um ponto tal que, invocando a experiência de vida, Ruy Mesquita lembrou ao jovem concorrente os equívocos que cometera nos primórdios de sua carreira, advertindo-o para que não os repetisse. A admiração recíproca entre os dois prevaleceu desde então.

Apesar de assertivo, nas conversas pessoais e reuniões com seus editorialistas, Ruy nunca foi apenas um panfletário. Também foi um analista arguto de seu tempo e de seu país. Como o pai, tinha consciência de que as instituições políticas não se justificam só por valores morais. Sabia que, quando elas não resultam de imperativos reais ou quando não se alicerçam em fundamentos concretos, o país passa a viver tensões e crises. Foram essas tensões e crises o objeto dos editoriais que escreveu ou orientou.

* JOSÉ EDUARDO FARIA É JORNALISTA, CHEFE DO DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA E TEORIA DO DIREITO DA USP, É DOCENTE DA FUNDAÇÃO GETÚLIO VARGAS E UM DOS GANHADORES DO PRÊMIO JABUTI DE 2012.

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