Um limite para Assad

Essa é a nova regra do jogo, que os Estados Unidos, o Reino Unido e a França fizeram questão de deixar bem clara

O Estado de S.Paulo

17 Abril 2018 | 03h00

O ataque dos Estados Unidos, Reino Unido e França contra instalações militares na Síria, na sexta-feira passada, em retaliação ao ataque com armas químicas nas imediações de Damasco e de Homs, sete dias antes, que deixou 49 mortos e dezenas de feridos civis, entre eles crianças, teve um objetivo preciso – advertir que novas operações desse tipo por parte do regime de Bashar Assad não ficarão sem uma dura resposta, mas evitar ao mesmo tempo atingir as forças da Rússia e do Irã que apoiam o presidente sírio, o que poderia ampliar perigosamente o conflito.

Foi uma operação de envergadura, mas de curta duração, que destruiu ou danificou seriamente três alvos: um laboratório de pesquisa científica em Damasco e dois depósitos de gases tóxicos em Homs. O presidente Donald Trump disse que os Estados Unidos e seus aliados estão preparados para uma resposta “contínua” até que o regime sírio interrompa definitivamente o emprego de armas químicas. Isso significa, esclareceu seu governo, que outros ataques só serão realizados se Assad insistir em utilizar aquelas armas.

Essa é a nova regra do jogo, que os Estados Unidos, o Reino Unido e a França fizeram questão de deixar bem clara para Assad e seus dois aliados, a Rússia e o Irã. Não por acaso, Trump afirmou que o ataque foi um “resultado direto” da incapacidade ou falta de vontade da Rússia de impedir que Assad continuasse a empregar armas químicas contra a população de seu país. Tratou-se, portanto, da reafirmação da existência de uma “linha vermelha” – o uso desse tipo de armamento – que, se ultrapassada, desencadeia reação dos Estados Unidos e seus aliados.

Essa linha vermelha foi traçada em 2012 pelo ex-presidente Barack Obama, que deixou de cumprir a promessa de retaliação quando, um ano depois, Assad ultrapassou esse limite e fez um ataque com gás que matou cerca de 1.400 pessoas em Ghouta, exatamente o mesmo subúrbio de Damasco em que voltou a atacar agora, provocando a reação de Trump, da primeira-ministra britânica, Theresa May, e do presidente francês, Emmanuel Macron. O presidente americano já havia dado uma demonstração da mudança de posição em relação a seu antecessor em abril de 2017, quando ordenou o lançamento de 59 mísseis contra uma base aérea síria, em resposta a ataque com armas químicas que deixou 80 mortos.

Ao contrário, porém, do que sugeria a conhecida retórica belicosa de Trump, cheia de bravatas, que foi mais uma vez usada à vontade pelo Twitter, dessa vez a propósito de Assad e seus aliados russos e iranianos, a operação conjunta de Estados Unidos, Reino Unido e França foi cuidadosa e serenamente planejada para atingir alvos muito precisos e limitados e evitar tudo que pudesse levar a uma ampliação do conflito e um perigoso choque de potências nucleares. Segundo o general Kenneth McKenzie, do Estado Maior das Forças Armadas, os bombardeios foram calculados para evitar mortes de civis e “danos colaterais” e que, durante e depois da operação, os Estados Unidos usaram os canais de comunicação que mantêm com a Rússia para evitar efeitos indesejados.

Isso explica que, também do lado russo, a dureza da resposta ao ataque contra seu aliado sírio não passou do plano da retórica. O embaixador da Rússia em Washington, Anatoly Antonov, afirmou que as ações dos EUA e aliados, assim como o que classificou de “insultos” ao presidente Vladimir Putin, “não ficarão sem consequências”. Afora isso, não houve nenhuma ação concreta. O cuidado das duas partes impediu que bases russas na Síria fossem atingidas. Mesmo com relação a Assad, os Estados Unidos indicaram que a operação não visava à sua derrubada.

Afora o estabelecimento da linha vermelha das armas química, desta vez para valer, os Estados Unidos continuam sem uma política definida para o intrincado conflito sírio, que já deixou 400 mil mortos e envolve, além dos russos, as rivalidades das principais potências do Oriente Médio. A não a ser a vaga busca de uma solução diplomática, que até agora não produziu resultado.

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