Um lugar no mundo

"Que horas são?" é uma pergunta corriqueira que pode expressar mais do que a simples necessidade de controlar o tempo que flui independente de nós. Ela pode, alegoricamente, ser feita para indagar o tempo histórico de uma sociedade: afinal, em que tempo estamos? Assim formulada, a pergunta enseja mais desdobramentos. Ela poderá inquirir a respeito do nosso lugar no mundo. Mais especificamente, se nós, brasileiros e latino-americanos, fazemos parte de uma civilização historicamente construída que nos daria uma identidade autônoma no cenário mundial. É a experiência do moderno que nos faz pensar nesses termos.

Alberto Aggio, O Estado de S.Paulo

20 Fevereiro 2015 | 02h07

A América Latina nasceu com a modernidade e sempre esteve vinculada à sua dinâmica histórica, suas crises e seu destino. Diversas formulações fizeram-nos cultivar a utopia de uma unidade latino-americana construída pelo antagonismo a um inimigo externo. Essa visão empobrecida e envelhecida não contempla as diversas experiências históricas do continente, bem como o conjunto de problemas comuns determinado quer pelo desenvolvimento da formação econômica mundial, que dá sentido unitário a uma época, quer pelas diferenciações internas e conexões que se estabelecem em diversas dimensões da vida.

Esse debate intelectual esteve mais vivo entre nós no momento da transição do autoritarismo para a democracia. Hoje, imersos na complexidade da vida democrática, temos boas razões para retomá-lo. Tanto mais em função do cenário cambiante e eivado de desafios que advém das recentes e auspiciosas mudanças anunciadas nas relações entre EUA e Cuba, da débâcle venezuelana, denotando uma deriva do bolivarianismo, da violência inaudita que assola a sociedade mexicana e, por fim, do dramático aprofundamento da crise de desempenho da economia brasileira e de credibilidade do atual governo, carente de direção e de unidade política. Tudo isso, sem mencionarmos outras realidades nacionais mais ou menos problemáticas, legitimaria a retomada desse debate, que desde então ficou adormecido em meio a grandiloquentes declarações de que o futuro, diante da crise dos países centrais, caberia, sem remissão, ao sul do mundo.

Em comparação com aquele período, o cenário atual não é de otimismo e as dúvidas a respeito de fazermos parte daquela "articulação social moderna" são ainda maiores. A sensação imediata é de que não somos mais do que residuais, uma espécie de sem-lugar no mundo, uma sociedade que perdeu todas as oportunidades e agora nada mais tem a esperar senão subalternidade, minoridade e impotência. Será que vingaram as suspeitas de alguns intelectuais, como F. Weffort, de que, mais que a dependência, talvez seja o abandono o que mais aterroriza os latino-americanos e, com ele, um futuro de pueblos olvidados do mundo? Como compreender essa história e escapar desse destino?

Condenada à "tradutibilidade" do que não lhe é original, a América Latina sempre foi pensada a partir de alguns paradigmas. O primeiro deles foi o europeu, visto como algo a ser atingido e, paradoxalmente, como responsável pelos históricos problemas que assolam a região. A partir do século 20 o paradigma europeu ganhou a companhia e a concorrência do norte-americano, que passou a cumprir até com maior rigor a sina de adesão calorosa e repugnante rechaço. Recentemente o modelo oriental alcançou um inaudito prestígio, primeiramente como referência de organização do mundo empresarial. Com o deslocamento do eixo econômico para o Pacífico, a China passou a ser o novo Graal, sendo cotidianamente mobilizada como modelo diante dos dilemas de inserção competitiva enfrentados pelas economias latino-americanas.

Mas é possível identificar também formulações alternativas, autoproclamadas antagônicas ou de resistência. No coração delas se assenta a ideia de uma "segunda independência" para o continente. Com maior ou menor profundidade, isso fez emergir um mosaico de nacionalismos, em geral, débeis e breves. A revolução cubana de 1959 avançou por esse sendero e seu regime se tornou, na América Latina, o epicentro de um nebuloso projeto de ruptura com a modernidade. Tal fabulação alimentou a reiteração de estratégias terceiro-mundistas de resultados cada vez menos auspiciosos e hoje francamente obsoletos diante da realidade mundial. O fracasso das guerrilhas inspiradas em Cuba, os pífios resultados econômicos, além de um autoritarismo cada vez mais abjeto, acabaram por ensejar a abertura de uma reflexão crítica sobre o regime cubano, até então identificado como o paradigma consagrado dessas perspectivas alternativas. Nesse novo cenário, o imaginário da revolução perdeu energia e vitalidade, abrindo uma via de superação para décadas de atraso da esquerda latino-americana, embora se deva registrar o grau ainda embrionário deste processo de revisão.

O Brasil é e não é América Latina. Por sua História diversa, sua identidade nunca esteve condicionada ao pertencimento à América Latina. Por essa razão, não faz sentido o País se deixar fazer prisioneiro de nenhuma utopia e tampouco de um presente ideologizado, seja qual for a roupagem que se adote: do bolivarianismo ao "socialismo del buen vivir". A democracia, as liberdades e o pluralismo facultaram as condições para que brasileiros e latino-americanos adquirissem uma consciência cada vez mais plena da relação de similaridade e distintividade entre ambos. Na quadra em que estamos, trata-se de retomar o debate em novos termos, compreendendo a identidade latino-americana como uma construção em aberto, sustentada em diferenciações específicas e em cinco séculos de diálogo com o mundo.

A recente experiência democrática torna-se assim o principal ativo da América Latina e do Brasil para postularem o seu lugar no mundo. Ela não se pode deixar perder.

*Alberto Aggio é professor titular da Unesp 

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