Um mergulho na política

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O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2017 | 05h00

João Doria, o prefeito que foi eleito rejeitando a condição de político, assumiu o Executivo municipal paulistano fazendo uma profunda imersão nas águas da mais convencional política, seja pelo conteúdo de seus discursos - nos quais somou à exaltação de sua expertise de gestor enfática apologia de seus méritos como conciliador -, seja pelo patrocínio que ofereceu à eleição do vereador Milton Leite (DEM) à presidência da Câmara Municipal, não hesitando em endossar a candidatura de um nome de fora da bancada de seu próprio partido em troca do que supõe ser uma sólida base de apoio a seu governo. Precipitou-se, ainda, em lançar a candidatura de Geraldo Alckmin para presidente da República em 2018. Isso certamente não é a melhor política, mas é política. E política é aquilo que os políticos como João Doria são eleitos para fazer.

O novo prefeito pode chamar isso pelo nome que seu agudo instinto marqueteiro entender mais conveniente. Mas, em benefício da futura credibilidade - e dos resultados - de sua gestão na Prefeitura de São Paulo, é bom que, passada a euforia da posse, João Doria não persista no equívoco de subestimar o discernimento dos paulistanos, imaginando que o cultivo de símbolos - tão importantes na política quanto na vida - possa atender indefinidamente à expectativa por um bom governo por parte dos quase 12 milhões de brasileiros que aqui vivem e labutam.

Não há necessariamente nada de errado em promover campanhas eleitorais e políticas públicas com base em honestas e eficientes ações de comunicação social. Campanhas eleitorais existem exatamente para apresentar candidatos a eleitores. Os eleitos, muito especialmente para mandatos executivos, têm obrigação de manter a sociedade informada sobre seus atos como gestores públicos. No mundo moderno, globalizado pelo extraordinário desenvolvimento tecnológico das comunicações, mais do que nunca, informação é poder.

O problema é que quando se trata de levar informação à sociedade, principalmente em atenção a interesses eleitorais, há uma forte tendência entre os políticos de confundir o papel de comunicador com o de animador de auditórios. É compreensível: ao discurso de um político que preze manter a dignidade de sua condição, muita gente prefere - na tribuna e na audiência - a fala solta, descomprometida, de um comunicador “popular”.

Afinal, quando João Doria aparece no horário político asseverando “não sou político, sou gestor”, ou representando o papel de experiente e sedutor mestre de cerimônia no ato de sua própria posse, ou ainda fantasiado de gari no lançamento da campanha Cidade Linda - e prometendo repetir a encenação “uma vez por semana em oito anos” - com quem ele próprio fica mais parecido: com um político, ou “gestor” confiável, ou com um animador de programa de auditório? Diante dessa exuberante demonstração de irresistível vocação para a ribalta, a quem confia em que o novo prefeito de São Paulo tem reais condições de fazer uma boa gestão à frente desta desafiante metrópole, só cabe dar-lhe a sugestão de privilegiar a austeridade, acima dos lances midiáticos.

Até porque o comportamento midiático tem um efeito antipedagógico quando, por exemplo, o político se apresenta como não político, na intenção óbvia de cortejar a enorme massa de brasileiros decepcionados com os políticos de modo geral. Além disso, negar a política é negar a democracia, pois não existe outra maneira, numa sociedade livre, de promover a unidade na diversidade que caracteriza a condição humana e de possibilitar a conciliação de convicções e interesses que abram caminho para a paz social e à prosperidade para todos.

O Brasil precisa de políticos. Políticos honestos e dedicados à promoção do bem comum. Cabe aos brasileiros escolhê-los, por meio do voto consciente, tão livre quanto possível da manipulação midiática.

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