Um 'momento bíblico'

Geralmente formal e empertigado, o presidente da Câmara dos Deputados, dirigente peemedebista e companheiro de chapa da candidata Dilma Rousseff, Michel Temer, estava muito à vontade no almoço que reuniu anteontem 38 senadores da base aliada do Planalto e 18 ministros, na casa do vice-líder do governo, Gim Argello. Tão à vontade que dessa vez deixou de lado o costumeiro tom professoral para viver, como diria depois a outrora agnóstica Dilma, um "momento bíblico".

, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2010 | 00h00

"Estamos aqui partilhando este pão", saudou os companheiros, "assim como partilhamos este governo e estaremos no futuro partilhando o governo com a presidente Dilma." A desprevenida reafirmação da mentalidade que torna os políticos desprezíveis aos olhos da população era um misto de afago e exortação. Os sensíveis colegas de Temer estavam, afinal, magoados com o presidente Lula por ter ele dito no sábado, num comício para Dilma em Curitiba, que pedirá a Deus que ela, se eleita, tenha um Senado "de mais qualidade, um Senado mais respeitador, um Senado que não ofenda o governo, como eu fui ofendido".

Esfregando sal na ferida, Lula pediu ainda aos eleitores que renovem a Casa. Não havia nada de virtuoso nas palavras do presidente. O que provocou o seu desabafo foi a lembrança de que em 2007 o Senado derrubou a CPMF, segundo ele "por mesquinharia, apenas pensando em prejudicar". A CPMF não teria caído se dependesse apenas dos votos da oposição. Senadores governistas também contribuíram para o desfecho que deixa Lula injuriado até hoje. Os operadores da campanha petista apressaram-se a produzir um evento para mitigar o aborrecimento dos aliados.

Daí o almoço, com a presença de uma dúzia e meia de ministros, e a mensagem de Temer, alusiva às recompensas que aguardam os engajados no final da jornada - no mais autêntico espírito franciscano do "é dando que se recebe". O deputado disse ainda o que os políticos estão cansados de saber, embora tendam a aplicar o conhecimento apenas em benefício próprio. "Não se ganha eleição de Brasília, a campanha parte dos Estados", reiterou, "e a campanha da Dilma nos Estados está entregue a vocês." Habitualmente, o PMDB recebia para dar, no Congresso, os votos de que precisavam os presidentes eleitos por coligações.

Agora, pela primeira vez, o partido entra no jogo antes do pleito, tendo imposto o nome de Temer para vice. Lula preferia o neopeemedebista Henrique Meirelles, presidente do Banco Central. A legenda espera de um eventual governo Dilma mais do que os seis Ministérios e a penca de outros cargos luzidios na administração direta e indireta recebidos de Lula. "Hoje estamos dividindo o pão, a carne e um pouquinho de camarão", brincou, com o sossego dos justos, o líder do governo no Senado e vice-presidente do PMDB, Romero Jucá. Faz lembrar, naturalmente, o dito do dramaturgo Bertolt Brecht: "Primeiro vem o rango, depois vem a moral."

Dilma, a propósito, esteve conspicuamente ausente do profano repasto. Ela decerto terá preferido não ser vista na casa do anfitrião, para não expor a sua imagem de integridade às críticas da oposição. Com efeito, o ex-corretor de imóveis Gim Argello, cujo patrimônio se multiplicou como que por um passe de mágica desde que ele entrou para a política, na melhor tradição do Distrito Federal, responde a processo no Supremo Tribunal por lavagem de dinheiro, crimes contra o patrimônio, apropriação indébita, ocultação de bens, peculato e corrupção passiva. A ação corre em segredo de Justiça.

De todo modo, a presença de Dilma chez Argello seria um detalhe. O que interessa aos brasileiros é a exacerbação previsível do loteamento do governo federal, em caso de vitória da candidata petista. Sob a égide de Lula, chegou-se ao pior dos mundos. De um lado, a partilha, como diria Temer. De outro, o aparelhamento. Com a mão direita, Lula premiou com cargos públicos os representantes da mais enxundiosa coalizão governante já vista no País. Com a esquerda, abriu a administração ao novo pelegato sindical. Por que seria diferente com Dilma?G

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