Um museu escondido em reformulação

Localizado na Santa Casa de Misericórdia, procura se rever como instituição museológica

*June Locke Arruda, O Estado de S.Paulo

03 Outubro 2016 | 03h09

Há algum tempo escrevi neste mesmo espaço sobre o Museu Santa Casa de São Paulo, MSC-SP (museu@santacasasp.org.br). Contei sobre as características do acervo, dos objetivos que eu e minha equipe tínhamos e hoje finalmente podemos dizer que a estratégia começa a sair do papel.

Localizado no Hospital Central da Irmandade Santa Casa de Misericórdia, o MSC-SP procura preservar a memória da construção e evolução da Santa Casa, bem como contar a história da cidade por meio de seu acervo e edificação. A coleção teve início no ano 2000, por iniciativa do provedor Octavio de Mesquita Sampaio e pelas mãos do sr. Augusto Carlos Ferreira Velloso. Inaugurado em 2001 numa discreta sala, expondo apenas alguns objetos, hoje o acervo físico possui cerca de 7 mil itens e mais de 200 mil arquivos digitais. São registros que vão além da história institucional, possibilitando contar alegrias e dramas vividos pela sociedade paulista, uma vez que a Santa Casa já foi o principal hospital de atendimento da cidade. Em sua história podemos destacar o episódio da gripe espanhola de 1918 e o Hospital de Sangue na Revolução Constitucionalista de 1932. Ou, ainda, entrar em contato com a história de vida de personalidades que por aqui passaram e hoje dão nome a ruas da nossa cidade, como a sra. Veridiana Prado e o dr. Arnaldo Vieira de Carvalho.

Ao longo deste ano de 2016, o MSC-SP procura se rever como instituição museológica, aperfeiçoando sua prática diária, valorizando a pesquisa, a formação de sua equipe e se abrindo para a sociedade – para além de seu público interno, composto por funcionários da área médica e pacientes, para todos os que queiram conhecer mais dessa importante história.

A partir de um diagnóstico museológico realizado no fim de 2015, que levou em consideração o levantamento do acervo patrimonial da instituição e as observações técnicas das ações museais, foi possível constatar a atual situação do MSC-SP, desde aspectos gerenciais e administrativos até procedimentos de manutenção, funcionamento e infraestrutura do prédio, quanto à observação in loco de características da salvaguarda (documentação, conservação, segurança e guarda do acervo) e de comunicação (exposição, ação educativa, publicações). O objetivo maior de todo esse processo foi perceber as potencialidades da instituição, permitindo uma consciência que implica uma gestão que dialoga, por meio de parcerias e redes colaborativas, com instituições públicas e privadas a fim de potencializar o efeito de todas as suas ações.

No primeiro semestre de 2016 o MSC-SP deu prioridade a inscrever projetos próprios em editais, como o Edital de Modernização de Museus do Ibram e o Edital de Preservação de Acervos Museológicos do Proac 2016. Com essas ações o museu busca as condições necessárias que permitirão os subsídios para pôr em prática as necessidades emergenciais do acervo. Os projetos inscritos estão focados na área de salvaguarda e caso o museu tenha acesso à verba pleiteada será possível equipar o local com uma reserva técnica, criar base de dados que atenda às especificidades das tipologias do acervo e realizar uma catalogação padronizada e sistematizada.

Num segundo momento o museu pretende inscrever projetos na área de comunicação, a fim de rever seu espaço expositivo, adequando melhor sua estrutura física, sua comunicação visual e seus projetos educacionais. Atualmente, 80% do acervo encontra-se exposto em 12 salas do museu e os outros 20% estão acomodados em outras dependências da Santa Casa.

Os projetos preveem ainda a contratação de uma equipe temporária especializada para dar andamento às ações em conjunto com a equipe fixa do museu. Essa experiência permitirá uma rica troca de realidade museal entre instituição e profissionais com ampla expertise na área. Essas ações garantirão ao MSC-SP uma gestão mais eficiente de seu acervo, proporcionando melhor fluidez de pesquisa e acesso às informações, propiciando melhores conteúdos para o desenvolvimento de curadorias e de ações educativas.

Enquanto aguarda o resultado da avaliação desses projetos, o MSC-SP continua recebendo seu público visitante, grupos agendados e pesquisadores. No primeiro semestre deste ano o museu recebeu a exposição Ciência e Arte – A trajetória de Lilly Ebstein Lowenstein entre Berlim e São Paulo. Idealizada pela neta de Lilly, a sra. Ester Lowenstein, a mostra ficou em cartaz nos corredores da Santa Casa por três meses, atingindo um público de aproximadamente 10 mil pessoas passantes. O museu ainda recebeu 41 desenhos de anatomia, que complementam ainda mais o seu acervo, e mais 60 unidades do livro que conta a história da trajetória de Lilly para venda; os recursos arrecadados são revertidos para a manutenção do Museu.

A exemplo das doações de Ester Lowenstein, há 15 anos a saúde financeira do museu é subsidiada por doações pontuais e voluntárias, não tem uma receita própria para o planejamento de suas ações. A fim de mudar esse cenário, a equipe do museu se debruça também sobre a realização do Plano Museológico, levando em consideração a Portaria Normativa n.° 1, de 5 de julho de 2006 (DOU de 11/7/2006), do Iphan.

Dentre outras ações, pretendemos ainda este ano fechar os nomes que vão compor o conselho consultivo do museu, que terá como principais atribuições o apoio à nossa direção na tomada de decisões sobre os processos de doações, garantir apoios de mecenatos e aconselhar nas linhas programáticas de exposição. O conselho será composto por especialistas da área e membros da sociedade civil. A criação de uma associação de amigos também é um interesse e almejamos futuramente dar andamento a essa organização.

Contamos com toda a sociedade para nos auxiliar a manter a história da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo viva, bem como na preservação e comunicação do acervo do seu museu.

*Mordomo e diretora do MSC-SP

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