Um ódio que perde o objeto

A ladroagem desvelada pela Odebrecht não foi uma invenção exclusiva de Lula e seus asseclas

*Eugênio Bucci, O Estado de S.Paulo

13 Abril 2017 | 03h11

A entrada em cena da lista de Fachin, revelada em furo de reportagem do Estado na tarde de terça-feira e tornada pública logo em seguida pelo próprio ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), desautorizou os rancores partidários que consomem o Brasil. Mas vamos devagar com o raciocínio.

Como todo mundo viu, Edson Fachin, relator da Operação Lava Jato no Supremo, mandou abrir inquéritos contra 98 autoridades com foro privilegiado, incluindo 8 ministros de Estado, 24 senadores e 39 deputados. O presidente da Câmara dos Deputados e o presidente do Senado Federal figuram na lista. Outros 201 casos envolvendo gente que não tem (ou não tem mais) foro no STF, como Luiz Inácio Lula Silva, Dilma Rousseff e Fernando Henrique Cardoso, foram remetidos a instâncias inferiores. As acusações são muito sérias: corrupção passiva, corrupção ativa, lavagem de dinheiro, fraude em licitações, lavagem de dinheiro, formação de cartel, etc.

Com uma lista tão caudalosa, Brasília lembra a Itaguaí do conto O Alienista, de Machado de Assis. Nessa obra de ficção, o dr. Simão Bacamarte, especializado em distúrbios mentais, começa a confinar os que manifestam sintomas suspeitos. Lá pelas tantas, o leitor se dá conta de que o médico internou nada menos que quatro quintos da vila no seu asilo, a Casa Verde. Então, o sistema vem abaixo.

Claro: Moro não é Bacamarte, Brasília não é Itaguaí, o século 19 não é o século 21 e corruptos não são doentes dos nervos (não obrigatoriamente, ao menos). Mas no caso da República Federativa o número de presos, réus, indiciados, investigados e suspeitos é machadiano. Restará um político de relevo que esteja são e saudável? Seguindo com as analogias de fundo médico, a colunista Vera Magalhães, no Estado de ontem, diagnosticou uma “septicemia republicana”: a infecção moral se generalizou no corpo da Nação.

Se formos além das metáforas patológicas ou terapêuticas, veremos que a situação se apresenta menos como enfermidade e mais como um paradoxo. Deu um tilt no sistema. Estamos vivendo um curto-circuito ético, jurídico e político. Comecemos pelo que há de ético e jurídico nesse imbróglio.

Por definição, um crime corresponde à descrição de uma conduta fora da norma, fora da regra, uma exceção quando comparada aos padrões de comportamento adotados pela maioria. Um ato vicioso é o que contraria os costumes, desobedece ao hábito seguido pela maioria. O que estamos vendo agora, porém, é uma conduta criminosa, viciosa e antiética adotada não por uns poucos, mas por um contingente imenso de agentes públicos. A prática da corrupção, tal como está tipificada na lei, parece não ser um desvio de minoria, virou um método das amplas maiorias. O que fazer? Será preciso mandar prender quatro quintos do Congresso Nacional, como fez Simão Bacamarte em Itaguaí? Ficou difícil.

O paradoxo político é igualmente perturbador – mas este, surpreendentemente, talvez seja salutar. Pelo paradoxo político que se armou, o discurso do ódio partidário, que se manifesta como uma epidemia corrosiva na esfera pública brasileira, perdeu seu objeto. Isso talvez seja bom, como logo se verá.

Uma demagogia de novo tipo, a demagogia da antipolítica, campeia no País inteiro. Os mais inflamados expoentes dessa doutrina populista gostam de alardear que não são políticos. Ou se declaram “gestores”, ou posam de “militares”, ou invocam a credencial de “servos de Deus”, entre outras variações. Podem ser tudo, menos políticos. Em suas pregações, insinuam ou afirmam abertamente que os “políticos” são aproveitadores, ineptos e desonestos. Paradoxalmente, os demagogos da antipolítica fazem política 24 horas por dia e maldizem a política, especialmente amaldiçoam Lula e o Partido dos Trabalhadores. Como todo candidato a tirano precisa de um inimigo, os demagogos da antipolítica elegeram essas duas entidades, Lula e o PT, para o posto de inimigo preferencial.

Aí, a já célebre lista de Fachin veio abalar os fundamentos dessa demagogia. O que temos na lista, em lugar de uma fieira de petistas, é um bando suprapartidário. Dos 98 investigados com foro privilegiado, há gente de 16 partidos. O PT vai na liderança, é bem verdade, com 20 integrantes. Mas na cola, com 17 nomes, acelera o PMDB de Michel Temer. Em terceiro lugar dispara, resoluto, o PSDB, com um pelotão de tucanos de alta plumagem, como Aloysio Nunes Ferreira, José Serra e Aécio Neves.

A lista mostra que o monopólio da ladroagem nacional não é do PT, a invenção da ultracomplexa ladroagem hipermoderna descortinada pela delação da Odebrecht não foi exclusiva de Lula e seus asseclas.

É por isso que a partir de agora o ódio dos demagogos da antipolítica tende a ficar sem objeto. Satanizar a esquerda não vai mais funcionar, pois a direita está no mesmo balaio de suspeições. Ainda conviveremos por um bom (mau) tempo com fúria sanguinária contra qualquer projeto socialista, mas a consistência lógica do argumento se esgarçou.

Não que o PT seja santo, bom ou injustiçado. A agenda oculta da corrupção pôs a perder todo o projeto político que o partido representava. Foi um desastre total que sangrou os cofres públicos, feriu a normalidade institucional e praticamente aniquilou a esperança e o engajamento dos cidadãos de boa-fé que acreditaram em Lula. O PT não pode ser inocentado. Mas os outros partidos também não podem, e isso pode ser uma oportunidade para o amadurecimento político. Ou a sociedade brasileira entende isso, ou vai produzir novos desastres, apostando em novos salvadores da Pátria.

Para mudar o Brasil, se é que ainda dá tempo, os brasileiros precisarão de algo além do ódio partidário – que se mostra vazio. Em vez de ódio, os brasileiros poderiam tentar a cultura política do diálogo. Sem impunidade, sem compadrio, o diálogo pode erguer os pilares da reinvenção da República.

*Jornalista, professor da ECA-USP

 

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