Um país estagnado

Dados como o IDH mostram a complexidade dos problemas nacionais. Há que se desconfiar das soluções fáceis

O Estado de S.Paulo

16 Setembro 2018 | 03h00

Pelo terceiro ano seguido, o Brasil aparece estagnado na 79.ª posição, entre 189 países analisados, no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), dado divulgado anualmente pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano (Pnud). O País recebeu nota 0,759, que representa um ínfimo acréscimo de 0,001 ponto em relação ao ano anterior. A nota obtida mantém o Brasil no rol das nações que são consideradas como de alto desenvolvimento humano, bem acima do pior colocado no ranking, Níger (0,354), e bem distante da Noruega (0,953), primeira colocada.

Enquanto o Índice de Gini afere o grau de concentração de riqueza em um país, variando de zero (plena igualdade) a um (desigualdade extrema) – o Brasil é o 10.º colocado neste ranking, um dos países mais desiguais do mundo, com índice 0,515 –, o IDH é o índice balizador de qualidade de vida levando em consideração a renda, a educação e a saúde de um povo. Quanto mais próximo de um for o IDH, maior será o desenvolvimento humano.

O indicador responsável por manter a posição brasileira no ranking de IDH foi a saúde. No período avaliado – o levantamento foi feito com base em dados de 2017 – houve um aumento na esperança de vida ao nascer dos brasileiros: 75,7 anos. Em 2015, era de 75,3 anos.

No campo da educação, que considera tanto o nível de alfabetização como o grau de escolarização dos cidadãos, não houve avanços significativos. De acordo com dados da Pnad Contínua, do IBGE, o porcentual de brasileiros com 15 ou mais anos que não sabem ler e escrever foi de 7% em 2017, um pouco menor do que o dado do ano anterior, 7,2%. Também não houve grande alteração em relação à expectativa de anos de escolaridade para uma criança que entra no sistema de ensino em idade escolar, que desde 2015 permanece inalterada na marca de 15,4.

Quando se avalia a renda, no entanto, observam-se os efeitos perversos da mais grave crise econômica de nossa história recente, resultado direto dos desatinos de Dilma Rousseff na Presidência da República. Em 2015, a renda nacional per capita era de 14,350 ppp (paridade do poder de compra em relação ao dólar, na sigla em inglês). No ano seguinte, auge da crise que culminou no impeachment da ex-presidente, a renda caiu para 13,730 ppp. Já em 2017, observou-se uma ligeira recuperação, subindo para 13,755 ppp. Vê-se, portanto, que Dilma Rousseff foi apeada do poder em boa hora, antes que tivesse tempo para ampliar os danos infligidos ao País por sua absoluta inépcia.

O impeachment de Dilma Rousseff cessou uma escalada de erros que se sabe lá para onde poderiam ter levado o País. São enormes, no entanto, os desafios que ainda se apresentam à Nação a fim de recuperar os anos perdidos. Será necessário um grande esforço nacional para que as distâncias que hoje separam o Brasil dos países mais desenvolvidos sejam encurtadas, não pela posição no ranking de IDH por si só, mas porque isso representaria a melhora da qualidade de vida dos brasileiros.

A igualdade de todos perante a lei se manifesta em muitos aspectos da vida nacional. Em menos de um mês, por exemplo, os cidadãos aptos a votar irão às urnas para escolher o próximo presidente da República, governadores e seus representantes nas Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional. No silêncio das cabinas de votação, não há variável externa que faça o voto de um brasileiro valer mais do que o de outro. 

Entretanto, pode-se dizer que, em muitos aspectos, o grau de desigualdade presente na vida cotidiana dos brasileiros avilta o princípio que os constituintes quiseram resguardar. É verdade que nunca houve e jamais haverá plena igualdade entre os cidadãos, mesmo nas nações mais avançadas, mas o Brasil ainda tem muitas necessidades básicas a suprir. 

A Nação tem nas mãos uma grande oportunidade de criar este futuro almejado ao votar com responsabilidade no dia 7 de outubro. Dados como o IDH mostram a complexidade dos problemas nacionais. Há que desconfiar das soluções fáceis.

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