Um país que perde eficiência

A constatação, por um recente estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), de que a produtividade média do trabalhador brasileiro por hora de trabalho é a mais baixa entre 12 países com os quais o Brasil disputa mercados comprova que pouco se fez nos últimos anos para aumentar a eficiência do setor produtivo nacional. Continua a se ampliar o fosso entre o Brasil e outros países no que se refere à capacidade de conquistar e manter espaços no mercado mundial, sobretudo o de produtos industrializados.

O Estado de S.Paulo

06 Março 2015 | 02h06

Em nota na qual examina a evolução da competitividade da indústria brasileira entre 2002 e 2012, a equipe econômica da CNI mostra uma grande disparidade entre o que vem ocorrendo no Brasil e nos países com presença destacada no comércio mundial, como Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Coreia do Sul, Cingapura e Taiwan.

Tomando como base um indicador chamado Custo Unitário do Trabalho, calculado em dólares e resultado de uma combinação de salário real, produtividade do trabalho e taxa de câmbio, o estudo da CNI constatou que, ao longo do período estudado, apenas quatro países perderam competitividade e, dentre estes, o Brasil foi destacadamente o que mais perdeu. Aqui, o custo do trabalho aumentou 9%, bem mais do que o segundo país que mais perdeu competitividade, a Austrália, onde o custo de produção cresceu 5,3%.

No outro extremo, o dos países que se tornaram mais competitivos, a liderança é da Coreia do Sul, onde o custo unitário do trabalho diminuiu 6,2%. Até países que há muito tempo lideram as estatísticas de produtividade e competitividade registraram avanço. O caso dos Estados Unidos, a maior economia do planeta, é exemplar: entre 2002 e 2012, o custo do trabalho caiu 5,2%.

Dois dos três componentes do índice da CNI tiveram desempenho pior do que o da quase totalidade dos demais países. A valorização do real em relação ao dólar foi maior do que a de todas as moedas dos países analisados. Em um único caso, o de Taiwan, a moeda local se desvalorizou na comparação com o dólar, mas com uma variação muito pequena (0,5%). Já o real, segundo o estudo, se valorizou 7,2% ao ano entre 2002 e 2012. O salário real médio no Brasil cresceu à média anual de 1,8%, variação só superada pela observada na Coreia do Sul, com crescimento anual médio de 2,5%.

No entanto, mesmo tendo registrado o maior aumento real de salário, o que fez crescer o custo do trabalho e reduziu sua capacidade de concorrer internacionalmente, a Coreia do Sul foi o país que mais ganhou competitividade na lista examinada pela CNI. É um exemplo de que, mesmo melhorando constantemente a remuneração dos trabalhadores, é possível reduzir o custo proporcional do trabalho se essa melhora vier acompanhada de ganhos da produtividade do trabalho.

É na produtividade que está a essência do aumento da competitividade da Coreia do Sul. A produtividade, medida pela quantidade de produto por hora trabalhada, aumentou à média de 6,7% ao ano na Coreia, enquanto no Brasil o aumento ficou em apenas 0,6% ao ano, o menor do grupo de 12 países analisados. Países com alto nível de produtividade, como Estados Unidos, Japão e Alemanha, tiveram desempenho bem melhor, o que fez crescer a distância que separa a economia brasileira das demais quanto à eficiência produtiva.

Não se trata de taxa de câmbio ou da remuneração do trabalhador, mas da qualidade da mão de obra, da qualidade e eficiência do setor produtivo, da disponibilidade de infraestrutura e ambiente de negócios que estimulem e facilitem a produção. Políticas públicas inadequadas ou mal administradas, quando elas existem, explicam o atraso brasileiro.

Para mudar esse quadro são necessários investimentos públicos e privados, bem direcionados e bem geridos. E investimentos - sobretudo em tecnologia e inovação, indispensáveis para reinserir competitivamente a indústria brasileira na economia global - só são efetivados quando há ambiente adequado. Não é o ambiente que predomina no País.

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