Um pedido absurdo

Mesmo para uma prefeitura de pequena cidade pobre do interior, pedir doações a particulares - de cadeiras a ventiladores - já seria no mínimo surpreendente e incorreto. Onde já se viu uma coisa dessa? Pois não é que isso acaba de acontecer em São Paulo, a maior e mais rica cidade do País? O que dizer então, nesse caso? Que o mundo ficou de pernas para o ar? Que jamais se poderia esperar tamanho disparate? Que os que governam a cidade perderam ao mesmo tempo o respeito à população e o senso do ridículo? Tudo isso e mais alguma coisa pode ser dito, tanto a respeito do pedido inusitado como das explicações que os governantes se sentiram obrigados a dar e que fazem pouco da inteligência dos paulistanos.

O Estado de S.Paulo

12 Abril 2013 | 02h16

Da estranha solicitação, que saiu no Diário Oficial do Município de 29 de março, constam 96 itens e 11 mil produtos destinados a suprir necessidades do setor de transportes e trânsito, em especial da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), a primeira a ser eventualmente beneficiada com a generosidade da população. Alguns dos produtos da lista de pedidos bastam para dar uma ideia do estado de penúria em que a Prefeitura acha que se encontra esse setor: 45 telefones, 85 impressoras, 32 lixeiras, 9 micro-ondas, 69 notebooks, 17 TVs e 139 ventiladores. A Secretaria Municipal de Transportes e a CET precisam também de 3.179 cadeiras. Todos esses produtos e equipamentos não precisam ser novos. Podem ser seminovos, desde que em boas condições.

As TVs, de 22 a 50 polegadas, se destinam ao serviço de monitoramento de trânsito. E a maior parte das cadeiras - mais de mil - é para as salas de aula do Centro de Treinamento de Educação de Trânsito, onde há "muitas que estão quebradas ou em condições precárias de uso". A julgar pelo número de cadeiras pedido, há muitos funcionários trabalhando e alunos estudando em pé.

Em nota, a CET afirma que a atual administração encontrou uma "realidade sucateada, não só na infraestrutura da secretaria, mas também nas da CET e da SPTrans", a empresa que gerencia o serviço de ônibus da capital. Acrescenta que o pedido de doações não significa que a Prefeitura deixará de investir em infraestrutura de transporte, lembrando os R$ 100 milhões que serão destinados à revitalização do sistema de semáforos. Se há dinheiro para semáforos, por que não para aqueles outros equipamentos da lista?

O secretário de Transportes, Jilmar Tatto, respondeu em declaração à Rede Globo: "Eu pedi para fazer esse levantamento (da lista de doações esperadas). Então, ao invés de gastar dinheiro para isso, já que a nossa prioridade é a modernização semafórica e o investimento em transporte público, eu publiquei no Diário Oficial para dar transparência, para que todos que quiserem doar esses equipamentos possam fazer (isso) de forma transparente".

Há dois aspectos a considerar nessa declaração. O primeiro é a sem-cerimônia com que Tatto diz que o governo decidiu cuidar das prioridades de seu setor e deixar o resto por conta da generosidade do distinto público. O segundo é a tentativa de desviar a atenção do pedido de doações para a "transparência" com que foi feito, como se isso por si só o justificasse. Ou seja, se for às claras, pode pedir, que está certo.

Na mesma linha, foi o prefeito Fernando Haddad, em declarações ao mesmo programa. Disse ter ficado surpreso com o pedido de doações publicado no Diário Oficial - como todos os paulistanos, poderia acrescentar - e deu em seguida a explicação que encontrou para ele: "Eu achei engraçado e liguei para o secretário (dos Transportes) para entender. Aquilo ali é uma recomendação da Procuradoria para receber doações que são muito comuns. E, como você não pode receber doações sem dar transparência, ele resolveu publicar no Diário Oficial".

Nem uma palavra sequer, pelo menos naquela entrevista, sobre o pedido propriamente dito, que coloca a Prefeitura de pires na mão. É sobre ele que os paulistanos esperam uma explicação razoável, se é que ela existe. Se não existe, como tudo indica, um pedido de desculpas. Mas com transparência, para que o público possa aceitá-las.

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