Um prêmio à liberdade

Um homem que, em nome da liberdade de seus concidadãos, não hesitou em sacrificar a sua própria - condenado a 11 anos de detenção por "subversão", está preso desde 2008 - mereceu da comunidade democrática internacional a mais do que justa e necessária homenagem, na forma da escolha de seu nome para receber o Prêmio Nobel da Paz de 2010. Trata-se do dissidente chinês Liu Xiaobo, que, desde sua participação nas manifestações em favor da democracia e dos direitos humanos realizadas na Praça da Paz Celestial em junho de 1989, foi preso diversas vezes pelo regime comunista de Pequim por sua coerente defesa da liberdade de expressão e da liberdade política em seu país.

, O Estado de S.Paulo

09 Outubro 2010 | 00h00

Como era de prever, o governo que o colocou diversas vezes atrás das grades e pretende mantê-lo preso pelos próximos nove anos reagiu com fúria raivosa. O Ministério das Relações Exteriores da China protestou contra a escolha da Comissão Nobel, considerando a decisão uma "obscenidade", convocou o embaixador da Noruega - país ao qual cabe a presidência da comissão que anualmente escolhe o laureado com o Prêmio Nobel da Paz - para externar seu descontentamento com a decisão e anunciou que a escolha de Liu pode gerar atritos entre os dois países.

Em resposta à furiosa reação de Pequim, o ministro de Assuntos Exteriores da Noruega, Jonas Gahr Store, esclareceu o que é mais do que óbvio para os que acompanham o processo de escolha do ganhador do Prêmio Nobel da Paz, mas que o governo chinês parece desconhecer: há uma clara separação entre a Comissão Nobel, independente, e o governo de Oslo. Por isso, "a Noruega não tem que pedir perdão pelo trabalho da Comissão".

Há algum tempo, quando o nome de Liu Xiaobo surgiu entre os cotados para ganhar o Nobel da Paz, o governo chinês começou a pressionar as autoridades norueguesas e os membros da Comissão. As pressões não tiveram nenhum efeito, e a escolha do dissidente chinês foi mais do que merecida.

Ex-professor visitante da Universidade Columbia, em Nova York, Liu foi um dos líderes dos protestos estudantis na Praça da Paz Celestial e, com outros ativistas, negociou, com os comandantes dos militares que haviam cercado a praça, a saída pacífica dos manifestantes, o que evitou um banho de sangue.

Na época, Liu foi condenado a dois anos de prisão. Em 1996, foi preso novamente por "perturbar a ordem pública" ao criticar o Partido Comunista e condenado a três anos de trabalhos forçados. Quando estava preso, casou-se com a poetisa Liu Xia, que hoje luta por sua libertação.

Em 2008, foi preso novamente após liderar a elaboração e divulgação de um manifesto político, a Carta 08, que pedia liberdade de expressão e a organização de eleições com a participação de diversos partidos - e não apenas o Comunista, no poder desde 1949 e que não tolera nenhuma forma de oposição. Tornou-se, por isso, como afirma a nota do governo chinês, "um criminoso sentenciado pela Justiça da China por violar a lei".

A escolha de Liu como ganhador do Prêmio Nobel da Paz de 2010 expõe para o resto do mundo quanto ainda carecem das liberdades democráticas fundamentais bilhões de pessoas responsáveis por um dos fenômenos econômicos mais impressionantes do mundo contemporâneo.

A esperada, e furiosa, reação do governo de Pequim, de sua parte, demonstra como ainda é férrea a resistência dos governantes chineses a aceitar as liberdades que prevalecem na grande maioria dos demais países. No plano interno, a China priva da liberdade os seus cidadãos. Quando se trata de comércio, no entanto, reclama a mais irrestrita liberdade de acesso aos mercados estrangeiros.

Cedo ou tarde, e justamente porque o país adquire importância cada vez maior na economia e na política internacionais, o governo da China terá de assumir responsabilidades que implicam abertura política. Deveria começar atendendo ao apelo das principais lideranças mundiais e libertar Liu Xiaobo, cujo único crime é crer na liberdade.

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