Um problema nada fácil

No próprio dia da nova operação, usuários, tanto os da antiga como da nova Cracolândia, formaram pequenas concentrações em vários pontos da cidade. Ou seja, o problema apenas muda de lugar. Por isso, já se fala mesmo na criação de áreas controladas para consumo de droga

O Estado de S.Paulo

14 Junho 2017 | 03h03

A operação conjunta realizada domingo passado pelo governo do Estado e a Prefeitura, desta vez na nova Cracolândia, na Praça Princesa Isabel – formada ali pelos dependentes de droga que deixaram a antiga, na Alameda Dino Bueno e adjacências, depois de operação semelhante feita dia 21 de maio passado –, mostra a disposição de tornar permanente o combate ao tráfico nessa região, assim como prosseguir na forma de abordar os dependentes para convencê-los a se tratar. Mas deixa claro ao mesmo tempo o quanto é complicado resolver o problema.

A retirada dos dependentes pelos 550 homens da Polícia Militar empregados na operação permitiu a prisão de mais dois traficantes, com um dos quais foram apreendidos 774 gramas de crack, R$ 1.596,00 e uma balança de precisão, o que eleva para 50 o número dos presos nas duas operações. Como ainda não foram cumpridos 38 mandados de prisão contra traficantes que agem na região, identificados pela Polícia Civil, é de esperar que novas ações sejam feitas ali. O governador Geraldo Alckmin, que esteve na Praça Princesa Isabel depois de concluída a operação, juntamente com o prefeito João Doria, explicou a posição do seu governo com relação ao tráfico na região.

A ação será permanente, porque não se pode resolver o problema do dia para a noite, afirmou Alckmin, uma decisão acertada que deveria ter sido adotada há muito tempo. Mas antes tarde do que nunca. E isso será feito, acrescentou, de maneira a evitar a concentração de dependentes como a que existiu na antiga Cracolândia, durante muitos anos, porque “ela facilita a vida dos traficantes, atrai pessoas e dificulta a abordagem (dos dependentes pelos serviços social e médico)”.

Essa estratégia parece correta, porque tudo indica que o alvo da polícia não é apenas o crack, mas principalmente outras drogas, como a cocaína, comprada por dependentes de passagem pela Cracolândia, e que é responsável pelo grosso do dinheiro conseguido pelo tráfico na região, hoje dominado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), de acordo com investigação feita pela Polícia Civil. Traficantes e consumidores dessas drogas se aproveitam da concentração dos dependentes de crack para facilitar sua ação. Nesse sentido, as duas recentes operações na região têm dado bons resultados.

Mas resta o problema dos dependentes de crack, que vivem em condições sub-humanas nas Cracolândias, onde quer que elas se formem, e involuntariamente dão cobertura para o tráfico mais pesado e lucrativo. A solução deste é especialmente difícil pelas suas características. A começar pelo fato de o crack ser uma droga ao mesmo tempo barata e capaz de gerar dependência rapidamente. Por isso suas vítimas principais são pessoas de baixa renda, embora cada vez mais não poupe também os abastados.

Alega a Prefeitura, segundo reportagem do Estado, que desfazer concentrações como as da antiga e da nova Cracolândia não serve apenas para limpar a sujeira que ali se acumula rapidamente, como aconteceu domingo passado na Praça Princesa Isabel. A dispersão dos dependentes favoreceria também o seu contato com os agentes de saúde, que tentam convencê-los a se tratar nos serviços especializados da Prefeitura e do governo do Estado.

A questão é muito complicada, porque, desalojados, os dependentes voltam, como no caso da Praça Princesa Isabel, ou se concentram em outro local. No próprio dia da nova operação, eles voltaram para aquela praça. E uma parte deles, tanto os da antiga como da nova Cracolândia, se dispersou e foi formar pequenas concentrações em vários pontos da cidade. Ou seja, o problema apenas muda de lugar. Por isso, já se fala mesmo na criação de áreas controladas para consumo de droga. Mas isso levanta a questão de como a droga chegará a elas, já que o tráfico deve ser combatido.

Esses são alguns dos desafios para os quais se esperam respostas das autoridades policiais, de saúde e de assistência social da Estado e da Prefeitura.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.