Um prudente otimismo

A recessão poderá terminar neste ano ainda, se for restaurada alguma estabilidade no sistema financeiro. Nesse caso, 2010 será um ano de recuperação. A previsão, a mais otimista desde o início do ano, foi apresentada no Senado pelo presidente do banco central dos Estados Unidos (Federal Reserve, Fed), o economista Ben Bernanke. Quando a maior parte dos analistas se mostra insegura quanto à duração da crise, a indicação de um prazo relativamente curto para o início da retomada é animadora. Mas o otimismo é sujeito a uma condição importante e nada fácil de se cumprir. A economia só voltará a funcionar razoavelmente quando a arrumação do sistema financeiro der algum resultado. Isso dependerá não só de uma regulamentação mais severa do mercado, mas também, e preliminarmente, da recapitalização dos grandes bancos. Ainda se discute se o governo deverá estatizar algumas instituições temporariamente - ideia rejeitada por Bernanke, que admite, apenas, a participação minoritária do governo no capital dos bancos - e o trabalho de reabilitação está apenas no começo. A restrição apontada por Bernanke - a recuperação econômica não virá antes da normalização dos bancos - não é uma novidade. Foi apontada por vários economistas e governantes, incluído o primeiro-ministro da Rússia, Vladimir Putin, empenhado em justificar a ajuda aos bancos em seu país. Mas é uma lembrança oportuna, quando o governo americano se dispõe a pôr em prática o pacote de estímulo fiscal de US$ 787 bilhões aprovado neste mês pelo Congresso. Depois de haver trabalhado muito pela aprovação dessa proposta, o presidente Barack Obama ainda tem de se esforçar para transmitir algum entusiasmo aos políticos, empresários e consumidores. Foi esse, aparentemente, o objetivo central do presidente em seu primeiro discurso ao Congresso a respeito do Estado da União, na terça-feira à noite. Ele voltou a descrever os problemas da economia americana, mas apontou também as possibilidades de reativação e as inovações políticas contidas no pacote. No mesmo dia, um instituto de pesquisas mostrava a confiança do consumidor no nível mais baixo desde 1967. Mas o presidente Obama não se limitou a comentar a crise econômica e a tentar transmitir algum ânimo ao público. Olhando para mais longe, ele defendeu a adoção, desde já, de uma política de ajuste do orçamento, como forma de garantir uma recuperação segura da produção e do emprego. O atual governo herdou um déficit fiscal de aproximadamente US$ 1 trilhão. Esse déficit deve crescer com os novos gastos programados para estimular a economia e com a ampliação dos benefícios fiscais aos contribuintes. Essas medidas podem favorecer a recuperação da atividade, num prazo não muito longo, mas deixarão também uma consequência indesejável - um enorme rombo nas contas públicas. Quanto maior esse buraco, maior a dificuldade de financiá-lo e, portanto, maior o risco de ser necessário recorrer a taxas de juros elevadas e prejudiciais a uma reativação econômica mais firme e mais duradoura. É importante, por isso, pensar desde logo numa política de contenção de gastos. Sempre é possível começar pelo corte de gorduras orçamentárias e em seguida aperfeiçoar a política elevando a eficiência da administração. No Brasil, o governo só se ocupou, até agora, com a concessão de incentivos fiscais, nem todos bem concebidos, e não iniciou nenhuma ação concreta para compensar a renúncia fiscal. Outro ponto a favor de Obama é a qualidade de seu programa de estímulo. Há muita discussão sobre os detalhes e políticos do Partido Republicano têm falado em desperdício de recursos. Talvez algumas das críticas sejam fundadas, mas um ponto parece indiscutível: o pacote foi concebido como um conjunto de medidas articuladas e com potencial para produzir resultados a longo prazo. Um dos pontos fortes do programa é a destinação de mais de US$ 100 bilhões à educação, para contrabalançar os efeitos imediatos da crise e dar um impulso a uma renovação essencial para o futuro da economia. Falta ver, naturalmente, como serão executadas as várias ações previstas no programa. Mas o conjunto, já se sabe, é muito mais que uma porção de projetos meramente justapostos num pacotão multibilionário. É um bom começo.

, O Estadao de S.Paulo

26 de fevereiro de 2009 | 00h00

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