Um salto para a integração

É preciso dar um salto na integração comercial com o mundo, disse em palestra na Câmara dos Deputados o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Mauro Borges. O desafio imediato - fundamental, segundo ele - é concluir o acordo do Mercosul com a União Europeia, um empreendimento em negociação há mais de dez anos e emperrado, por muito tempo, principalmente por culpa dos governos argentino e brasileiro. Ele defendeu também uma ampliação do compromisso com o México e a formação de uma zona de livre-comércio com toda a América do Sul.

O Estado de S.Paulo

05 Maio 2014 | 02h05

Depois de 11 anos de diplomacia comercial terceiro-mundista, a fala do ministro soou como novidade, principalmente quando ele mencionou o acordo com os europeus como um passo para "a continuidade do processo de abertura da economia brasileira".

A referência ao "processo de abertura" contrasta com a tendência protecionista dos governos petistas, vinculada a uma política industrial com validade vencida, um mal-ajambrado arremedo da velha estratégia de substituição de importações. Mantida até os anos 80, essa estratégia durou tempo excessivo no Brasil e só foi abandonada muito depois de economias mais dinâmicas, especialmente na Ásia, terem tomado o rumo da integração competitiva no mercado internacional. Preso a concepções do passado, o PT preferiu o retrocesso.

É de fato urgente, como indicou o ministro, concluir a negociação com a União Europeia. Mas isso depende de um acerto com a Argentina para a apresentação das ofertas do Mercosul. O entendimento com os argentinos, já atrasado, deveria ter ocorrido no começo de abril, mas foi novamente adiado. Agora, segundo o ministro Borges, a esperança é apresentar a oferta no fim de maio ou no começo de junho. Esse atraso é só um exemplo de como a vinculação a um Mercosul empacado complica os esforços de integração comercial do Brasil.

Esse problema pouco incomodou a administração petista, enquanto a ideia de maior integração com mercados relevantes foi reprimida pela vocação terceiro-mundista e pela fantasia dos acordos Sul-Sul. Não há como ignorá-lo, no entanto, quando se inclui na agenda algum objetivo mais sensato que a ilusão infantil de uma frente de países emergentes e em desenvolvimento.

A ideia de uma integração produtiva com os sul-americanos também é positiva, mas de execução complicada nas condições atuais. Os países dinâmicos da região, como Chile, Colômbia e Peru, já têm acordos com vários parceiros industrializados e avançaram muito mais na integração internacional. Mais de uma vez os governos do Paraguai e do Uruguai mostraram interesse em diversificar, contra a orientação dominante no Mercosul, os compromissos comerciais.

Um bom passo para o "salto na integração" proposto pelo ministro Borges seria o reconhecimento, franco e realista, do erro cometido em 2003, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu torpedear, em colaboração com o companheiro argentino Néstor Kirchner, o projeto da Área de Livre-Comércio das Américas (Alca). Com os países do Mercosul autocondenados ao isolamento, os sul-americanos mais ajuizados e com melhor visão de longo prazo trataram de se associar aos mercados da América do Norte e de buscar integração com a Europa. A recém-constituída Aliança do Pacífico, fundada por México, Peru, Colômbia e Chile, é um passo adiante nesse movimento de cooperação e de multiplicação de oportunidades.

Uma das consequências desse erro básico - uma espécie de ato inaugural da delirante diplomacia Sul-Sul - foi a limitação do horizonte comercial da indústria brasileira. Sem acesso preferencial a mercados mais importantes e mais desafiadores, boa parte dessa indústria - incluída a automobilística - se acomodou como fornecedora da vizinhança, especialmente da Argentina. Enquanto isso, o Brasil desenvolveu com a China uma relação semicolonial de fornecedor de matérias-primas. E ainda chamam isso de diplomacia independente. Todo apoio ao ministro, se ele estiver disposto a mudar esse jogo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.