Um seguro para o eleito

O Brasil tem atravessado com segurança a turbulência internacional, mas, ainda assim, tem perdas para contabilizar

O Estado de S.Paulo

22 Outubro 2018 | 04h00

Com cerca de US$ 380 bilhões em reservas e contas externas em ordem, o Brasil tem atravessado com segurança a turbulência internacional, mas, ainda assim, tem perdas para contabilizar. Como outros emergentes, o País foi afetado pela redução do investimento direto estrangeiro e pela desvalorização de sua moeda. Os dois eventos são efeitos da alta gradual dos juros americanos e das tensões no comércio global, derivadas principalmente do confronto entre Estados Unidos e China. No primeiro semestre deste ano o Brasil ficou em nono lugar na lista dos principais destinos do investimento estrangeiro direto, segundo a Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Um ano antes estava na sexta posição. De um ano para outro o investimento direto no setor empresarial brasileiro diminuiu 22%, de acordo com o relatório. Foi o maior recuo observado na América Latina e no Caribe. Em toda a região, a queda foi de 6%, pelas contas da Unctad.

O documento menciona “incertezas” ocasionadas por eleições em “algumas das maiores economias” da área, mas sem referência direta ao Brasil. A discrição diplomática, nesta altura, foi um cuidado inútil. A insegurança política tem sido apontada por entidades multilaterais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI), e também por funcionários brasileiros como um fator de instabilidade nos fluxos financeiros e no câmbio. As incertezas políticas têm ampliado, no caso do Brasil, o efeito da turbulência causada pelo aperto da política monetária americana e pelos conflitos comerciais deflagrados pelo protecionismo do presidente Donald Trump. A China é o adversário principal, mas outros grandes parceiros, como a União Europeia, têm sido afetados e têm reagido às ações americanas.

Pelas contas do Banco Central (BC), o investimento direto líquido recebido pelo Brasil chegou a US$ 29,87 bilhões no primeiro semestre deste ano. Esse valor foi 17,52% menor que o registrado na primeira metade do ano passado. A distância entre as cifras da Unctad e as do BC decorre da diferença de critérios, mas os dois cálculos apontam a mesma tendência. Pelo padrão oficial brasileiro, o investimento direto absorvido nos 12 meses até agosto alcançou US$ 69,63 bilhões, com recuo de 15,32% em relação ao contabilizado nos 12 meses até agosto de 2017.

Apesar da redução, o investimento direto continua suficiente para cobrir com muita folga o déficit em transações correntes. Esse déficit ficou em US$ 15,54 bilhões nos 12 meses terminados em agosto. As transações correntes são formadas pela soma da balança comercial de bens (normalmente superavitária) e das balanças de serviços e de rendas primárias (geralmente em vermelho) e rendas secundárias. Nos 12 meses até agosto o saldo negativo da conta corrente equivaleu a 0,80% do Produto Interno Bruto (PIB) - uma proporção perfeitamente saudável. O investimento direto correspondeu a 3,61% do PIB. Esse recurso é em geral o mais desejável, porque alimenta diretamente a atividade econômica e é muito mais estável que as aplicações em ativos financeiros, tipicamente especulativas.

Com a conta corrente em bom estado, reservas em torno de US$ 380 bilhões e governo pouco endividado em moeda estrangeira, o País tem resistido bem ao impacto dos fatores externos. Mesmo o efeito inflacionário da alta do dólar foi até agora muito limitado. Isso tem permitido ao BC manter os juros básicos em 6,50%.

Mas a situação das finanças públicas é muito ruim e deve continuar precária por alguns anos, com a dívida do governo geral em ascensão. Se o novo governo negligenciar os ajustes e reformas necessários à arrumação das finanças oficiais, a crise fiscal acabará contaminando toda a economia. A inflação subirá, a desconfiança dominará os mercados e as barreiras contra choques externos serão minadas. Essas barreiras - contas externas saudáveis e bom volume de reservas - são ativos preciosos para o começo da nova administração. Qualquer imprudência do novo governo poderá devastar em pouco tempo esses ativos.

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